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quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Ceratocone e Lentes de Contato - Especialidade

A oftalmologia é uma das especialidades médicas. O estudante de medicina tem em seu currículo uma carga enorme de informações em relação a todos os aspectos da saúde humana e na residência o médico escolhe uma especialidade para seguir. A medicina é a carreira a qual possui o maior número de especializações.

Após a residência médica e outros cursos de especialização o médico poderá ainda fazer estágios de aperfeiçoamento em áreas específicas de sua especialidade, constituindo o que se chama a sub-especialidade. A especialidade da oftalmologia possui diferentes áreas de sub-especialidade como segmento anterior e posterior e dentro de cada uma destas sub-especialidades alguns oftalmologistas optam por focar em uma sub-especialidade ainda mais específica. Seria uma espécie de sub-especialidade da sub-especialidade, um exemplo disso é um especialista em segmento anterior que especializa-se em catarata ou córnea.

Um grande exemplo que lembro historicamente é o de meu pai, Dr. Saul da Silva Bastos (CRM 1725), formado na UFRGS em 1957 e que trabalhou por cinco anos como clínico geral no interior, chegou a realizar em torno de 500 partos, alguns em condições de difícil acesso e sem recursos. Em 1963 optou por seguir a carreira na época que era de oftalmo-otorrinolaringologista, para em meados de 1969 seguir unicamente pela oftalmologia especializando-se nos EUA em córnea, visão sub-normal e reabilitação visual com o uso de lentes de contato especiais. Ao longo dos anos fez estágios de aperfeiçoamento na área nos EUA e Europa. Foi oftalmologista pioneiro no Brasil na adaptação de lentes de contato como atividade médica, introduzindo a lente Soper na adaptação de lentes no ceratocone. Até aproximadamente 1990 ainda realizava algumas cirurgias até que então optou então unicamente pela reabilitação visual com lentes de contato e doenças oculares externas. Um exemplo bem interessante de como a carreira de médico e mesmo do médico especialista podem ainda restringir a cada vez mais específicas sub-especialidades.

Há atualmente inúmeras destas "sub-sub-especialidades" cada vez mais complexas e necessárias, é impossível atualmente um oftalmologista tornar-se especialista em todas as áreas, mesmo na sub-especialidade de córnea, o especialista irá ter maior sucesso naquela área onde concentra sua maior atenção ou a atividades específicas que realiza com maior frequência. Não seria engano dizer que um especialista que faz de tudo em sua área (córnea por exemplo) tem maios preparo somente em uma ou talvez duas destas sub-especialidades e nas demais ele tem um conhecimento e curva de experiência médias.

Qual a relação disso com ceratocone e lentes de contato?

Parece óbvio que atualmente os mais experientes adaptadores de lentes de contato sejam aqueles que tem conhecimento de todas as lentes existentes no mercado, atuam regularmente na área e tem um percentual grande de sucesso. Geralmente participam ativamente de congressos e simpósios nas aulas e palestras sobre o tema. Incrivelmente até mesmo dentro da sub-especialidade das lentes de contato tem os especialistas que possuem maior experiência na adaptação de lentes especiais, sejam estas lentes rígidas [gás permeáveis] ou lentes esclerais. Um fato que dificulta a vida de pacientes com ceratocone são especialistas que não vêem a necessidade de estudar mais a fundo a adaptação de lentes especiais, de conhecer as opções e as diferenças entre lentes de diferentes fabricantes. Muitos pacientes, por desinformação, ficam a mercê de tentativas frustradas de adaptação de lentes rígidas por exemplo (muito comum) sem sucesso devido ao desconforto, lesões recorrentes e eventualmente acuidade visual insatisfatória. Infelizmente alguns especialistas tem um limitado conhecimento e especialmente pacientes pensam que é assim mesmo, que lentes rígidas são de fato desconfortáveis e que é muito difícil (para alguns impossível) de se adaptar. Um equívoco que aos poucos pode ser corrigido na medida que o assunto for mais divulgado nas palestras científicas o que pode ter grande contribuição no crescimento maior da adaptação de lentes rígidas. Muitas vezes os especialistas pensam em ir direto para lentes esclerais justamente por não ter esse conhecimento, a lente escleral é mais fácil pois o fator conforto inicial é de fato um componente importante nesta equação, no entanto em grande parte dos casos uma lente rígida especial para ceratocone pode resolver o caso com grande conforto e garantir o sucesso, com menor custo para o paciente.

O Papel das Lentes Esclerais

As lentes esclerais tem sido utilizadas como uma maneira de corrigir esta falha, e agora mais e mais médicos estão dedicando-se a este tipo de adaptação sem o devido preparo, para aprender com o fabricante em vez de pesquisar e estudar o tema com maior profundidade. Naturalmente que este é um tema que tem sido abordado cada vez mais em congressos e isso ajuda, mas ainda há muita desinformação em respeito ao tema. Quando iniciei, pioneiramente, em 2007 a fabricação dos primeiros protótipos das modernas lentes esclerais no Brasil, havia estudado exaustivamente o tema por cerca de 7 anos, graças a sugestão de meu pai, um visionário. Ele sabia, e logo entendi, que as lentes esclerais no nosso caso serviriam e vem servindo a solucionar casos de maior complexidade de córneas irregulares onde era muito complicada a adaptação de lentes rígidas e também como tratamento terapêutico e (de correção visual se for o caso) para patologias que afetam a superfície ocular como olho seco, síndrome de Stevens-Johnson, síndrome de Sjögren entre outras. Naturalmente que é perfeitamente possível o paciente optar pela adaptação de lentes esclerais se tiver boa indicação, mesmo em patologias de córneas regulares como miopia, astigmatismo corneano, hipermetropia, etc. mas a grande vantagem das lentes esclerais é a de sobrepor as irregulares corneanas elevadas como em alguns tipos de ceratocone muito deslocados do eixo visual, ceratocone pós-implante de anel, pós-transplante de córnea, pós-cirurgia refrativa e pós-trauma.

Nas últimas duas décadas observa-se um maior número de casos de ceratocone, e isso vem ocorrendo especialmente por duas razões:
  1. Pelos métodos de diagnósticos modernos como a topografia de córnea ou ceratoscopia) e pela tomografia de segmento anterior que é ainda mais precisa e permite que a córnea seja avaliada numa maior quantidade de detalhes. Estes recursos permitem ao especialista identificar casos "suspeitos" e casos iniciais de forma mais rápida e mais específica do que antes, embora a ceratometria ainda seja uma boa maneira de controlar alterações da curvatura corneana.
  2. O segundo motivo pelo qual há atualmente um maior número de pessoas com ceratocone é a de que houve nas décadas que antecederam o século XXI uma explosão demográfica e com isso o aumento exponencial das famílias. 
O ceratocone, apesar de todos os estudos sobre a sua origem, ainda é uma incógnita para os cientistas. Embora os estudos estejam apontando para uma causa genética, não é uma patologia a qual é passada de pais para filhos de forma manifestada e estes estudos todos referem que o ato de coçar os olhos tem ligação fundamental com o desenvolvimento e progressão da patologia.

Embora os tratamentos cirúrgicos que visam estabilizar a progressão, devolver o máximo de acuidade e qualidade visual aos pacientes, tenha evoluído muito nas duas últimas décadas, a correção visual mais efetiva que proporciona aos pacientes uma melhora substancial da acuidade e qualidade visual, é a adaptação de lentes de contato especiais. Em um grande numero de casos é possível obter acuidade visual 20/20 ou melhor, embora certos casos onde o paciente obtenha 20/25 ou 20/30 sejam perfeitamente aceitáveis, sendo que em casos mais extremos acuidade visual de 20/40 sejam considerados resultados muito bons para evitar ou retardar a necessidade de transplante de córnea. A decisão entre realizar um transplante de córnea ou não deve passar pela necessidade do paciente e pelas suas eventuais limitações. Outro fator importante e muitas vezes desconhecido do paciente e seus familiares é o dos riscos envolvidos no transplante. Embora as técnicas estejam a cada dia mais aperfeiçoadas e com mais recursos e opções em certos casos onde o paciente tem uma acuidade visual boa com lentes de contato e resolve fazer a cirurgia (não importa qual aqui) para "livrar-se das lentes" e mais adiante tem um encontro com a realidade e não muito agradável, quando não dá certo como ele (e familiares) esperavam. Aí vem alguns casos, na melhor das hipóteses de ter que reoperar, term que voltar a usar lentes rígidas (o que???), e o médico fez o melhor que ele pode, nem sempre os resultados cirúrgicos são aqueles que o especialista planeja obter. No caso da adaptação de lentes de contato, é definitivamente o método menos invasivo, mais seguro e possível de antecipar resultados (nos testes de lentes).

E quando lente é desconfortável?

Na imensa maioria das vezes o desconforto de lentes rígidas e de lentes esclerais (sim, tem pacientes que tem encontrado alguns problemas com lentes esclerais também) deve-se a qualidade pobre do desenho ou a imperfeições microscópicas no desenho da lente que provocam desconforto e eventualmente causam um desequilíbrio fisiológico, com ceratites recorrentes, erosão, síndrome de 3 e 9 hs entre outros pequenos problemas mas que podem agravar se não corrigidos e evoluir para uma úlcera de córnea.

"a lente rígida evita 
a progressão do ceratocone?"

Fig.1: Lente Ultracone (Ultralentes)

Um grande amigo do Rio de Janeiro, cirurgião oftalmologista e cientista de excelente reputação, o qual tenho grande simpatia e admiração, sempre que nos encontramos me pergunta: "-Luciano, lente rígida segura o ceratocone?" Embora eu sempre responda a ele que não, essa não é a função ou objetivo da adaptação de lentes de contato (tanto eu como ele sabemos que lentes de má qualidade ou mal-adaptadas podem até mesmo pioraro caso), eu costumo comentar com ele uma realidade que talvez seja uma exceção no Instituto de Olhos Dr. Saul Bastos (IOSB). Em primeiro lugar, "nós nunca estragamos nenhum olho" (palavras de meu pai, que ficaram para a posteridade), temos observado ao longo de mais de 44 anos de experiência com mais de dez mil pacientes de ceratocone os pacientes usuários de lentes de contato rígidas bem adaptados tem menor tendência a episódios de progressão dos que os que não usam lentes. Isso ocorre especialmente por algumas características, como lentes de alta qualidade e tecnologia bem adaptadas e pacientes e familiares bem orientados. Há também a possibilidade teórica de que uma lente especial para ceratocone bem adaptada (sem toque) forneça uma proteção para a porção de menor resistência biomecânica da córnea, prevenindo a ação mecânica da pálpebra superior no ato de piscar, uma vez que que ocorre centenas de vez ao dia. 

 Vídeo 1: Exemplo de uma lente Ultracone (Ultralentes) 
bem adaptada, sem toqueboa centralização e mobilidade ideal

Os pacientes diagnosticados muito cedo, ainda na infância ou puberdade e adolescência tem maior predisposição a episódios de progressão, isso ocorre basicamente devido as alterações hormonais e as mudanças que transformam o corpo neste período. Claro que grande parte deles tem episódios de progressão, quanto mais jovens os pacientes, como na puberdade e na adolescência maiores as chances de haver progressões significativas e mais frequentes. Mas a boa notícia é que passando bem este período o prognóstico melhora e hoje com o tratamento do crosslinking (CXL) há muito mais recursos para manter o caso estável mais cedo, evitando em grande parte progressões do ceratocone e facilitando a adaptação de lentes rígidas.

Um outro grupo de pacientes que devem ser observados e acompanhados de forma mais atenta são as mulheres com ceratocone, especialmente as que planejam ter filhos, as grávidas ou que tiveram filho recentemente. A gravidez produz alterações hormonais significativas na mulher e com isso, acredita-se, seja uma possível predisposição a um episódio de progressão pontual (da época). Não me lembro de ter perguntado isso aos amigos oftalmologistas que fazem o CXL mas no meu entender mulheres que estejam nesta condição, entre 18 e 35 anos pelo menos, tenham uma boa indicação de crosslinking (CXL) prévio a gestação ou mesmo durante a gestação. É bastante recomendável que isso seja perguntado ao oftalmologista para uma correta orientação.

O fato importante na reabilitação visual do ceratocone é que quando os óculos não mais proporcionam uma visão satisfatória, mesmo com uma esmerada refração por parte do especialista, as lentes de contato rígidas especiais e mais recentemente as lentes esclerais passam a ser uma opção.

Vídeo 2: Lente Escleral Scleral Bastos SB do 
tipo Full Scleral (Ultralentes) para ceratocone. 


Tipos de Lentes Disponíveis para Ceratocone

Gelatinosas / Híbridas Gelatinosas

Há atualmente no Brasil uma grande disponibilidade de desenhos de lentes rígidas, alguns de esclerais e alguns de lentes gelatinosas. Os casos mais iniciais e moderados podem ser devidamente solucionados com a prescrição de óculos com muita precisão na refração, outros terão bons resultados com lentes gelatinosas tóricas ou mesmo lentes gelatinosas especiais para ceratocone. Ainda nesta categoria encontra-se lentes híbridas que possuem um centro rígido e uma periferia (saia) gelatinosa para maior conforto. O que ocorre com certa frequência é o paciente desenvolver uma intolerância alérgica devido ao uso destas lentes uma vez que a oxigenação e lubrificação do epitélio corneano fica limitado. O ceratocone frequentemente está associado a alguma instabilidade do filme lacrimal, e com isso este tipo de adaptação pode ser comprometido com o tempo, embora em alguns casos o paciente use este tipo de lentes por cerca de 10 anos sem maiores complicações.

Rígidas Gás Permeáveis / Híbridas Rígidas

As lentes rígidas são largamente as mais utilizadas na adaptação de ceratocones, desde os casos iniciais aos mais avançados e até mesmo extremos. O que se observa nos pacientes que procuram o IOSB para readaptação são casos de pacientes que tiveram experiências desastrosas com lentes de má qualidade ou incorretamente adaptadas.  A inconsistência na qualidade de algumas lentes gera a noção equivocada e generalizada, repetida por muitos pacientes, de que todas as lentes rígidas são desconfortáveis. A maior parte destes caos pode ser readaptada com lentes de alta qualidade e tecnologia com sucesso. As lentes rígidas gás permeáveis proporcionam uma maior oxigenação da córnea superior a todos os demais tipos de lentes e uma melhor qualidade de visão quando bem adaptadas e com desenho apropriado. Estas lentes corrigem a visão formando um filme lacrimal entre a lente e a córnea irregular regularizando assim a luz que que formará a imagem na retina. Há também uma lente rígida feita de um material que ao ficar em contato com a solução de conservação forma uma película mais lisa e "macia" em sua superfície o que proporciona maior conforto e uma maior facilidade para a distribuição e renovação do filme lacrimal sob a lente. Há atualmente uma alta disponibilidade de lentes rígidas especiais para ceratocone no Brasil de diferentes fabricantes, assim como também desenhos de lentes rígidas para pós-transplante de córnea.


Lentes Esclerais e Semi-Esclerais

Fig.2: Lente Scleral Bastos (SB)
Na última década tem ocorrido no mundo uma tendência a adaptação das modernas lentes esclerais, assim como no Brasil onde tive a oportunidade de ser pioneiro no estudo, desenvolvimento e fabricação destas lentes. Atualmente há poucos laboratórios oferecendo esta tecnologia mas ela realmente facilitou a médicos e pacientes a terem uma adaptação com maior conforto, embora com custo bem maior o que dificulta o acesso a esta tecnologia. Lembrando que assim como a técnica do piggyback, a adaptação de lentes esclerais em muitos casos é a solução para o especialista que ainda não dispõe de lentes rígidas de qualidade o que facilita muito a vida do paciente, com conforto. No Brasil são poucos fabricantes que disponibilizam estas lentes, entretanto há uma boa disponibilidade de desenhos. A Ultralentes por exemplo possui três tipos de desenhos de lentes esclerais do tipo "full scleral" onde o diâmetros são maiores de 18.0 mm até 21.5 mm. e possui dois desenhos de lentes semi-esclerais (ou mini-esclerais) de diâmetros entre 16.0 mm. a 17.5 mm. As lentes esclerais tem diversas aplicações, desde casos de ceratocone dos iniciais aos mais avançados, pós-implante de anel, pós-transplante de cornea, pós-trauma, para miopia ou hipermetropia e astigmatismo e aplicações terapêuticas em algumas patologias que afetam a córnea, como síndrome do olho seco, síndrome de Sjogren, síndrome de Steven Johnson entre outras. 

Perspectivas para 2015

Felizmente a oftalmologia brasileira está muito atualizada e muitos avanços tem sido feitos em relação a tratamentos cirúrgicos do ceratocone, desde os menos invasivos como crosslinking e implante de anel intraestromal até as modernas técnicas de transplante de córnea. A utilização em alguns casos do femtosecond laser proporciona atualmente aos cirurgiões uma precisão nanométrica melhorando muito a qualidade e resultado dos procedimentos e mesmo as técnicas manuais estão também aperfeiçoadas. A industria de lentes de contato também disponibiliza uma infinidade de desenhos de lentes especiais que aumentam as chances de sucesso em um número cada vez maior de casos. As lentes de contato rígidas para ceratocone fabricadas no Brasil não deixam nada a desejar em relação as lentes disponíveis nos países de primeiro mundo em termos de qualidade.


O único fator que impede um maior acesso da população a um atendimento de melhor qualidade é o descaso do governo com a saúde pública no Brasil. O que já não era bom antes está cada dia pior, é o grande problema definitivamente não é a falta de médicos e sim algo muito mais amplo. Os grandes problemas da saúde pública no Brasil são a falta de investimentos, hospitais sucateados, sem equipamentos e insumos fundamentais, sem um plano de investimentos em hospitais novos e nem sequer na manutenção dos existentes, postos de saúde com falta de itens de primeira necessidade e instalações precárias sem manutenção alguma. O aumento exponencial da população brasileira lota os hospitais públicos, há uma enorme demora no atendimento dos doentes, há pacientes aglomerados e improvisados nos corredores dos hospitais aguardando atendimento e leito. Há, acima de tudo, a falta de uma política de carreira para os médicos do SUS, assim como há concursos, plano de carreira e garantias para o magistrado. O médico do SUS é um herói na maior parte dos casos atende com muita dificuldade uma demanda muito grande de pacientes em condições muito difíceis. Se a iniciativa de "importar" médicos cubanos fosse a solução não estariam dezenas de milhares de brasileiros com demoras de meses para conseguir uma consulta ou procedimento e os corredores dos hospitais não estariam cheios de pacientes em condições indignas aguardando atendimento.

Alguns hospitais, bem geridos e apoiados por uma administração eficiente, tem conseguido sobreviver dividindo o atendimento de particular e convênios com o SUS, mesmo assim as dificuldades são muitas, há inúmeros casos de hospitais fazendo "downsizing" (demissões de pessoal) para conseguirem manter-se dentro do orçamento e dar um atendimento o melhor possível aos pacientes. São as Santas Casas, a Hospitais de Clínicas, Hospitais Banco de Olhos, entre outros que lutam para dar um atendimento oftalmológico e de outras especialidades a aqueles que não possuem condições de ter plano de saúde ou pagar particular. Espero que estes vícios e erros possam ser corrigidos para que seja possível á população ter acesso a serviços de melhor qualidade e com médicos devidamente preparados. 

O paciente com ceratocone deve sempre, dentro do possível, obter a maior quantidade de informações antes de tomar qualquer decisão. É importante levar em consideração que dependendo do especialista a orientação pode ser diferente portanto a informação e a consulta com mais de um especialista pode ser a diferença entre uma decisão precipitada e outra planejada. Ao receber o diagnóstico o paciente, nem seus familiares, devem entrar em pânico, a orientação é procurar um ou mais especialistas para um exame oftalmológico e também procurar informar-se com outros pacientes sobre a experiência deles com a patologia. A internet oferece uma ampla disponibilidade de informações sobre o ceratocone mas é importante ter o cuidado de verificar as informações para não ter uma orientação incorreta, lembre que nada substitui a opinião do médico pois somente ele ao realizar o exame pode emitir um parecer e diagnóstico preciso, assim como estabelecer a conduta adequada. Há também os grupos de discussão nas redes sociais que agem como fato de conforto tanto para pacientes como seus familiares, vendo que não estão sozinhos e podem assim compartilhar suas experiências. Estes grupos de discussão tem demonstrado serem de grande utilidade para trazer maior tranquilidade.

As Lentes de Contato vs. Cirurgias

Definitivamente a principal forma de recuperar a acuidade visual no ceratocone é através da adaptação de lentes de contato rígidas especiais. Embora gelatinosas tóricas ou especiais, piggyback (lente rígida sobre uma gelatinosa) e lentes híbridas tenham seu papel e resolvam os casos menos complexos, na maior parte dos casos há uma limitação da acuidade e da qualidade visual que são elementos indissociáveis quando o paciente tem uma visão muito baixa. O mesmo ocorre nos procedimentos cirúrgicos, sejam os menos ou mais invasivos, quando bem indicados cumprem importante papel na reabilitação visual do paciente mas quando falham neste quesito a adaptação de lentes de contato torna-se mandatória para que o paciente possa ter restabelecida a melhor visão possível de se obter. 

Luciano é especialista no desenvolvi-
mento de lentes especiais para cerato-
cone, aliado da oftalmologia brasileira
com contribuições em desenhos espe-
ciais de lentes. É colunista da revista
 especializada Contact Lens Spectrum
 Magazine (EUA 2014/2015).                   
Espero de alguma forma ter contribuído com estas informações, tanto para os pacientes e seus familiares mas como para médicos que estão ainda em uma curva de aprendizado sobre esta sub-especialidade extremamente complexa que é a reabilitação visual no ceratocone. 

Um Feliz Natal e o desejo de um 2015 melhor para todos, com muita saúde, paz, harmonia e justiça.

Luciano Bastos
Diretor e Instrutor Clínico de Lentes de Contato Especiais - IOSB
Diretor e Consultor em Lentes de Contato Especiais - Ultralentes

10 comentários:

catarina correia disse...

Ola! Minha oftalmologista desconfiou, em um exame de rotina, que minha filha de 6 anos possa ter ceratocone. Estou muito preocupada. Você poderia indicar um especialista em Campinas / SP? Obrigada, Julia

catarina correia disse...

Ola! Minha oftalmologista desconfiou, num exame de rotina, que minha filha de 6 anos possa ter ceratocone. Estou muito preocupada. Você poderia me indicar um especialista em Campinas / SP? Obrigada

Luciano Bastos disse...

Olá Catarina Correia,

Embora o ceratocone em idade infantil seja extremamente raro é importante monitorar se houve alguma desconfiança. É recomendável fazer exames de tomografia de segmento anterior Pentacam ao menos uma vez a cada dois anos. Algumas perguntas que a dever ser feitas:

1. A criança coça muito os olhos?

2. A visão está afetada? O quanto?

3. Se ela usa óculos já, mudou a prescrição em pouco tempo e teve que trocar a receita?

Ao fazer o Pentacam é interessante prestar atenção nos mapas de curvatura sagital anterior, nos mapas de elevação anterior e posterior e na paquimetria (espessura corneana), além disso a análise do B.A.D. (Belin/Ambrósio Enhaced Ectasia) são igualmente importantes para a análise tomográfica da córnea e assim colaborar no controle.

Nada deve ser feito sem completa evidências ou seja, constatação inequívoca do diagnóstico e que ele progrediu.

É fundamental permanecer fazendo o controle com o oftalmologista.

Atenciosamente,

Luciano Bastos

Luciano Bastos disse...

Perdão, um ótimo especialista em Campinas:

Dr. Marcelo Vicente Sobrinho.

Rosilei Brandao disse...

Olá Dr Luciano,
Primeiramente que lhe parabenizar pelo seu trabalho e por todas as informações sobre Ceratocone. E também gostaria que me esclarecesse algumas dúvidas, porque a uns 9 anos minha esposa descobriu que tinha Ceratocone no olho direito, tentou adaptar tanto a lente rígida quanto a gelatinosa com dois médicos oftalmologistas diferentes durante todo esse tempo, mais teve rejeição desses dois tipos de lentes. Por este motivo resolvemos procurar outros profissionais, mais ainda não encontramos nenhum especialista na área, consultamos 3 oftalmologistas, onde, 1 recomendou o Anel de Ferrara e os outros 2 recomendaram o Crosslinking, agora minha esposa estar com 24 anos e a Ceratocone estar começando a desenvolver também no olho esquerdo. Por gentileza Dr Luciano, nós der sua opinião em algumas questões:

1) Você conhece algum Especialista em Ceratocone em Brasília? E onde ele atende?

2) Seus pacientes que fizeram o Crosslinking, ficaram satisfeitos? Tiveram melhora significativa?

3) E mesmo após o Crosslinking continuaram usando lente de contato ou foi possível o uso de óculos de grau?

4) Na sua opinião Dr Luciano entre o Anel de Ferrara e o Crosslinking, qual você indica? E qual tem mais chances de uma melhora?

Desde já Agradeço!
Rosilei Brandão

Luciano Bastos disse...

Olá Rosilei Brandão.

Obrigado pelas palavras gentis e por participar do Blog C&T. Apenas para esclarecimento quero lhe dizer que não sou médico, embora seja filho de um oftalmologista (Dr. Saul Bastos) que foi pioneiro no Brasil na reabilitação visual com o uso de lentes de contato especiais. Minha familiaridade com o tema deve-se ao fato de eu trabalhar com e para oftalmologistas, de estudar muito sobre o tema ceratocone e outras formas de córneas irregulares. Mas respondendo as suas perguntas e tecendo algumas considerações:

1. Dra; Maria Regina Chalita no CBV (Centro Brasileiro da Visão), ótima especialista que pode ajudar a sua esposa tanto na orientação correta como na adaptação de lentes especiais de alta qualidade e tecnologia que poderão proporcionar uma boa adaptação.

2. Os nossos pacientes no IOSB submetidos ao crosslinking tradicional(CXL) pelo Protocolo de Dresden demonstraram em sua maioria, como em estudos publicados, uma estabilização do ceratocone e eventualmente uma singela redução da maior curvatura e também observamos alterações na topografia até mesmo após um ano de seguimento. O CXL tem demonstrado ser uma técnica eficaz na função a que se propõe de deter o avanço da patologia, com índice de sucesso bastante razoável e sem maiores complicações.

Um fator não mencionado por você mas igualmente importante é que caso a sua esposa e você resolvam ter filhos, se é que já não tiveram, pode haver durante a gestação episódios de progressão do ceratocone, portanto o tratamento com crosslinking pode ser ainda mais indicado. Caso contrário o procedimento de acordo com o Protocolo de Dresden somente deve ser indcado caso exista a constatação inequívoca de que estão ocorrendo episódios sucessivos de progressão significativos nos últimos 6 - 12 meses.

3. Sim, absolutamente, o que for melhor e viável para uma acuidade visual e qualidade visual satisfatória.

4. No caso de sua esposa, pela idade e justamente pela questão menciconada no ítem 2, creio que o crosslinking pode ter uma melhor indicação. Entretanto é importante lembrar que somente o(a) oftalmologista que examinar sua esposa poderá avaliar o caso conforme todos os exames e pela observação clínica para dar uma opinião mais consistente. Mesmo assim sempre é interessante ter mais de uma opinião.

Espero ter ajudado e desculpe a demora em responder.

Atenciosamente,

Luciano Bastos

Juliana disse...

Luciano Bastos, bom dia,
Primeiramente não poderia deixar de parabeniza-lo pelas informações prestadas no blog sobre o Ceratocone.
Gostaria, se possível, suas considerações sobre o caso do meu marido.
Meu marido foi diagnosticado com Ceratocone em sua infância por volta dos 07 anos de idade. Assim na época realizou transplante de córnea nos dois olhos, sendo que em um dos olhos foi colocado a lente intra-ocular.
Na ocasião, um dos olhos por motivos que não sei lhe informar, houve a perda da cor de um dos olhos (antes os olhos do meu marido eram azuis) e olho esquerdo do meu marido ficou escuro e o olho direito continuou azul.
Logo após os transplantes, meu marido, precisou realizar a cirurgia de catarata em ambos os olhos.
Devido poucos recursos financeiros, a família dele não fez o acompanhamento devido e regular.
Assim no ano de 2013, retornou ao próprio oftalmologista no qual realizou os transplantes de córnea e, o mesmo informou que no caso dele seria viável a utilização de lentes rígidas para tentar estabilizar o progresso do Ceratocone. Porém, o grau nos olhos do meu marido já estava em 22 OD e 15 OE, e o medico disse que o caso é grave dado o fato de não ter feito um acompanhamento regular e que se as lentes não ajudassem deveria ser realizado um novo transplante de córnea em ambos os olhos, mas que não indicaria dada a complexidade do caso.
Ocorre que, as novas lentes rígidas nas quais o medico indicou, não param nos olhos do meu marido dada a curvatura dos olhos.
Estamos muito preocupados e apavorados, pois meu marido se queixa que está sentindo que sua visão diminui muito de 2013 até hoje (2015).
Luciano, peço por favor, nos oriente ou nos indique algum especialista no tratamento do Ceratocone no interior de São Paulo (próximo a Campinas, Piracicaba).
Ainda, peço a gentileza que nos informe o custo médio dessas lentes esclerais e se no caso dele é viável ou ainda se indicaria crosslinking ?
Desde já agradeço à atenção.
Juliana de Camargo

Luciana Colombo disse...

Luciana Colombo, Campinas,SP.
Olá Dr Luciano, excelente artigo, muito esclarecedor.
Tenho ceratocone, diagnosticado aos 14 anos, hoje tenho 44,e desde então uso lentes de contato, não enxergo bem com óculos.Dos meus três irmãos dois também tem,usam óculos.
Já fOi recomendado-me o transplante para o olho direito, esta muito ruim, segundo o médico as cicatrizes apresentam-se mais no centro da córnea deste olho. Mas não né sinto segura em realizar esta cirurgia.Quanto a sua suspeita de que durante a gravidez pode apresentar uma piora, nas duas gestações que tive lembro-me de sentir um maior desconforto com as lentes, o olho mais irritado e coceira. Na região se Campinas/SP, existe alguma clínica especializada em tratamentos para o ceratocone? Obrigada

Marco Túlio disse...

Olá Luciano

Frequento seu blog há um tempo já e hoje estou com 29 anos recém completados e ando bem desanimado e desmotivado com tudo nessa vida: trabalho, faculdade, relacionamentos com pessoas, etc. Minha mãe parece não entender meu problema e cobra coisas de mim que sou incapaz de fazer no momento, por causa das limitações visuais. Estou à procura de ajuda médica desde 2007/2008 para melhoria da visão e até agora não obtive NENHUM resultado benéfico com os diversos tratamentos que fiz: anel intracorneano , lentes rígidas, gelatinosas, óculos, etc. Tenho 1 anel em cada olho e sinceramente não senti absolutamente NENHUMA melhora visual prática nesses últimos anos. Desde 2008 e 2009 que coloquei os anéis no olho direito e esquerdo, respectivamente, não senti nenhuma melhora visual, tanto com lentes, quanto com óculos. Os exames acusam redução BAIXA de ceratocone, astigmatismo e miopia, mas eu interpretou os resultados de forma diferente, pois para mim NÃO HOUVE MELHORA significativa. Se houve, foi tão ínfima que não percebi.

Ando bastante desmotivado, pois desde que fui diagnosticado com a doença, em 2005, meus país me ajudaram com o que puderam e nada foi feito.

Peço desesperadamente sua ajuda para eu mudar radicalmente de vida e poder voltar a sorrir, após uns 12, 11 anos. Queria arriscar algum médico em Belo Horizonte, que NÃO seja Leonardo Gontijo e nem Paulo Ferrara. Perdi as esperanças nestes 2 e até desconfio que fui enrolado pelos mesmos. Eles evitavam falar em crosslinking, transplante de córnea e lentes esclerais.

Perdi a fé e quero trocar de profissional, nem que seja fora do estado de MG. Estou disposto a arriscar qualquer coisa para melhorar minha visão

O que eu posso fazer em BH? Você conhece o Dr. Sandro Coscarelli? Ou algum especialista em ceratocone, que não sejam Paulo Ferrara e Leonardo Gontijo e que possa me atender, sem ficar mantendo tratamento ineficaz em lentes ineficazes e anéis ineficazes?

Estou disposto a QUALQUER coisa. Inclusive já conversei com meus pais e assino um termo de compromisso para o transplante de córnea, se possível, só para me ver livre desta doença, que tirou minha vontade de viver há mais de 10 anos.

Estou aberto a QUALQUER tipo de sugestão sua, desde que não seja: anel de Ferrara, lentes comuns e etc. Quero coisas inéditas, novidades que possam realmente mudar minha vida para melhor, e não manter a mesma em estado estável

Inclusive já tinha mandado outros comentários aqui, mas não sei se você respondeu

Abraços

Francisqueldes Silva disse...

Excelente matéria Dr.Luciano bastos...muita informação
Cleide Francis