Comunidade Ceratocone e Tratamentos, Ajuda para quem recebe o diagnóstico de ceratocone e as alternativas de tratamento para esta patologia da córnea. Informações precisas, atualizações sobre tratamentos para o ceratocone, links para tópicos de discussões do Fórum Ultralentes, do Facebook e do Orkut, links para outras fontes de informação e artigos. Dicas e orientações sobre lentes especiais para o ceratocone.
Dica: Utilize a pesquisa personalizada do blog para assuntos específicos em relação ao ceratocone.
Este blog tem o compromisso de divulgar informações precisas e atualizadas sobre o ceratocone e as opções de tratamento, cirurgias e especialmente da reabilitação visual com uso de óculos ou lentes de contato.
Nos dias 14 e 15 de Dezembro ocorre o Curso Avançado Saul Bastos de Lentes de Contato Especiais, um evento de caráter absolutamente científico e avançado como nunca antes foi feito no Brasil. Deste encontro da elite de adaptadores de LC especiais surgirão novas perspectivas para todos aqueles que sofrem com a perda da acuidade e da qualidade visual, do desconforto que tem com lentes ou mesmo falta de adaptação.
O Curso Saul Bastos é um evento o qual todos os oftalmologistas seriamente engajados na reablitação visual de pacientes com ceratocone desde os iniciais aos mais avançados e extremos, em casos pós-transplante, pós-implante de anel intracorneano e outras patologias associadas, deveriam participar. Será a maior oportunidade na história da contatologia médica nacional de trocarem experiências, aprender um pouco mais com os debates e aprofundar ainda mais a sua capacidade de resolver os mais complexos casos de adaptações em córneas irregulares.
Recomendo que cada um de vocês comentem com o seu especialista, se tiverem a oportunidade, para sugerir que participem deste encontro. O propósito maior é trazer ao paciente as melhores alternativas de correção visual que é o principal problema enfrentado por estes pacientes.
Com o advento da topografia corneana o diagnótico mais preciso do ceratocone tem demonstrado que a patologia aumenta conforme a razão do aumento da população. Embora as estatísticas apontem em média um caso para cada duas mil pessoas em certas regiões, por motivos ainda desconhecidos pode ser maior ou menor. Antigamente muitos casos de pacientes que iniciaram usando óculos e diagnosticados com astigmatismo corneano eram na verdade um caso de ceratocone inicial difícil de diagnosticar, mas o tratamento juntamente com ou logo em seguida foi e tem sido na grande maioria das vezes a adaptação de lentes de contato especiais, e isso vale para outros países do primeiro mundo.
Qual o melhor tratamento?
Esta é uma pergunta frequente para aquelas pessoas diagnosticadas com ceratocone, inclusive de seus familiares que solidários ao ente querido buscam as vezes de maneira incansável maiores informações sobre esta patologia. É comum nas consultas com o oftalmologista pacientes irem acompanhados de um ou mais familiares (as vezes quase a família inteira) dada a importância fundamental que a visão tem na qualidade de vida destas pessoas. O impacto negativo que uma visão baixa causa nelas, dificultando o estudo, o trabalho, as relações sociais e as vezes até mesmo colocando o paciente em situações de risco.
Fig. 1: Ex. de mapa topográfico de ceratocone.
Esta situação acima ocorre após o paciente ter recebido o diagnóstico e somente terá alteração neste quadro quando o paciente tiver uma perspectiva de tratamento, uma esperança que sempre é dividida e anciosamente esperada pela família, sempre solidária. Em alguns casos estes pacientes terão de procurar diversos especialistas pois como atualmente a oftalmologia divide-se em uma enorme gama de subespecialidades muitas vezes um profissional, pode ser um excelente médico oftalmologista, mas sua subespecialidade é por exemplo, catarata, glaucoma, cirurgia refrativa, vias lacrimais, etc. Normalmente este médico irá indicar um conhecido que tem na sua prática o tratamento do ceratocone, seja por meios invasivos (cirúrgicos) ou por reabilitação visual com o uso de lentes especiais.
A resposta
A pergunta do título acima é fácil, direta e sugere uma resposta no mesmo estilo, direta e definitiva, entretanto esta resposta não é fácil, não é direta e é de fato de importante complexidade. Em primeiro lugar o paciente precisa ser examinado, fazer exames como topografia e/ou tomografia de córnea tem importante valor na interpretação do caso, consiste também em verificar a acuidade visual do paciente com correção e sem correção, primeiro se tenta os óculos que nestes caso são geralmente difíceis de obter um bom resultado e para isso é necessário um tempoo maior de exame e tentativas de obter uma refração clínica com precisão, geralmente com eixos de astigmatismo oblíquos e elevados. Alguns pacientes serão beneficiados com esta tentativa e a recomendação pelo protocolo de tratamento do ceratocone é de observar o paciente de seis em seis meses ou uma vez ao ano pelo menos para saber se está havendo evolução do caso ou não. Uma recomendação básica que está presente em praticamente todos os estudos do ceratocone publicados é a de não coçar os olhos pois o ato de coçar os olhos está associado diretamente a progressão do ceratocone. Neste caso o médico deve investigar a origem e como se apresenta o quadro de coceira ocular e determinar o tratamento para aliviar o sintoma.
É temerário indicar um tratamento como implante de anel ou crosslinking antes de observar o comportamento da ectasia, o ideal é orientar o paciente primeiro e se os óculos não proporcionarem uma acuidade visual satisfatória a adaptação de lentes especiais deve ser a opção de tratamento seguinte pois uma adaptação bem sucedida pode mudar a vida do paciente sem a necessidade de submeter-se a um tratamento no qual não se pode presumir com exatidão com o resultado que será obtído. Embora tenham surgido nas últimas décadas novos tratamentos para o ceratocone, desde o implante de anel intracorneano, o crosslinking de colágeno de córnea com riboflavina sob luz ultravioleta, novas técnicas de transplante manuais e pelo femtosecond laser, os resultados nem sempre são aqueles esperados pelo paciente e por conseqüência pelos familiares, um bom especialista e cirurgião deve selecionar bem os casos para uma melhor indicação onde é possível ao menos presumir que haverá uma melhora da acuidade e/ou da qualidade visual do paciente. Existem muitos depoimentos de pacientes que submeteram-se a estes procedimentos e que afirmam ter solucionado o seu caso, entretanto os depoimentos geralmente também mencionam esperarem mais do procedimento e muitos ainda requerem correção óptica para uma acuidade visual satisfatória e mesmo assim nem sempre os óculos irão resolver.
O importante papel das lentes de contato especiais
O mais interessante de tudo é que sempre a adaptação de lentes de contato rígidas (gás permeáveis) especiais ou mais recentemente lentes esclerais é a técnica que oferece a melhor resposta em termos de acuidade e qualidade visual para estes pacientes. Naturalmente que para que a adaptação seja de fato bem sucedida é necessário que esta melhor visão seja acompanhada com uma boa adaptação de parte do paciente, com conforto progressivo e assegurando a saúde fisiológica da córnea, do limbo e da esclera.
Felizmente no Brasil temos excelentes fabricantes de lentes, e embora nem todos os especialistas tenham todas as lentes de todos os fabricantes há uma diversidade grande de possibilidades. O que se observa é que estes pacientes as vezes, quando possível, viajam para outros estados em busca de soluções pois praticamente esgotaram as possibilidades e tentativas de adaptação. A adaptação de lentes especiais em casos de ceratocone, seja pós-implante de anel ou mesmo pós-transplante de córnea (transplantados com córneas irregulares), de degeneração marginal pelúcida, ceratoglobo, córneas pós-cirúrgicas é muitas vezes de altíssima complexidade, exigindo tempo maior de exames e testes com o paciente e também de ter um bom pessoal de apoio (auxiliares) para atender as necessidades de cada caso.
Há uma carência de especialistas que tenham maior experiência e conhecimento na adaptação de lentes de contato, especialmente devido a enorme quantidade de subespecialidades da oftalmologia que surgiram nas últimas décadas. Os congressos e simpósios de oftalmologia muitas vezes (quando o tema envolve segmento anterior e córnea) abordam a adaptação de lentes de contato especiais, no entanto dada a complexidade do assunto, dada as restrições de tempo (estes eventos abordam uma grande quantidade de outros assuntos, inclusive de lentes gelatinosas), dado o fato de que muitas vezes o oftalmologista tem que optar entre uma aula de adaptação de lentes e outra de cirurgia, grande parte dará preferência a cirurgia, isso infelizmente ocorre e não é falta de interesse do especialista, apenas ele tem que fazer uma opção e o interesse dele maior naquele momento pode ser aquela outra aula. Outro fator a ser levado em consideração é a de que temos hoje no Brasil uma quantidade exagerada de congressos de subespecialidades, tanto é que se olharmos o calendário oftalmológico veremos que há eventos em praticamente todos os meses do ano, alguns inclusive ocorrem nos mesmos meses, as vezes com dias de diferença. Enquanto não houver uma iniciativa por parte das entidades oficiais de rever esta questão e de propor uma mudança os especialistas tem que decidir ao longo do ano em quais os eventos eles irão. E esta decisão muitas vezes passa em primeiro lugar pelo assunto ou tema principal que será tratado neste ou naquele evento e muitas vezes a necessidade do profissional é de aprimorar-se ou reciclar-se em outra matéria que não seja a adaptação de lentes de contato especiais em córneas irregulares como o ceratocone, embora este esteja se tornando um tema importante nos últimos anos graças a iniciativa de algumas entidades ligadas ao tema.
Finalmente a resposta para a pergunta acima não é defintiva e muit menos simples, mas uma coisa podemos ter certeza, a técnica que melhor atende as necessidades de reintegrar o paciente de ceratocone a suas atividades é a adaptação de lentes de contato especiais. É importante que os oftalmologistas engajados nesta subespecialidade possam aprimorar seu conhecimento, desenvolver novas aptidões e conhecer outras técnicas e tecnologias, isso me leva a adicionar este texto abaixo.
O Curso Avançado Saul Bastos de LC Especiais
Foi com este pensamento que há cerca de um ano e meio atrás, iniciei o planejamento de um curso especializado na adaptação de lentes de contato especiais, elaborei o plano, conversei e me aconselhei com amigos oftalmologistas e expoentes na adaptação de lentes de contato especiais para compormos um curso avançado nesta área, um curso focado na adaptação de casos de córneas irregulares como o ceratocone e outros casos igualmente de alta complexidade. O curso teve sua maturação, teve aprimoramentos no programa e no formato para que proporcionasse aos oftalmologistas participantes a oportunidade não só de assistir aulas específicas de como adaptar, personalizar e aprimorar suas adaptações mas também de levar casos para discussão, em cada sessão do programa há um amplo espaço de tempo para discussão onde é livre para palestrantes, debatedores e participantes trocarem informações, idéias e fazer perguntas. O nome do curso (Curso Avançado Saul Bastos de Lentes de Contato Especiais) é uma homenagem a meu pai, Dr. Saul Bastos, um dos oftalmologistas pioneiros na reabilitação visual através da adaptação de lentes de contato especiais desde 1969-1970.
SALUS AEGROTI SUPREMA LEX
O curso tem enfoque absolutamente científico, vários temas afins serão tratados e os palestrantes terão toda a liberdade de manifestar a sua opinião, apresentar tecnologias de diferentes laboratórios e das técnicas por eles utilizadas. Embora tenhamos concebido o curso para ocorrer sem a necessidade de patrocínios, está aberta a possibilidade de patrocínios e a presença de expositores de empresas interessadas em participar, basta contatar pelo email contato@cursosaulbastos.com.br
Os oftalmologistas participantes sairão com uma carga de informações nunca antes vista em nenhum outro evento sobre o tema. Muitos pacientes de ceratocone, entre outros, terão benefícios diretos das novas possibilidades que se abrem para estes profissionais que vem de vários estados do Basil.
Muito obrigado a todos que lêem este blog pelas suas manifestações, pelos elogios e pelas suas participações. Este blog foi criado com a finalidade de trazer um pouco de conforto e como costumo dizer uma luz no fim-do-túnel.
Luciano Bastos
Em colaboração com o Blog C&T.
Ps. Evitei em meus comentários abordar a questão do SUS e da saúde pública pois este tema iria tornar o texto cansativamente longo. Apenas digo que sou solidário com os médicos e prestadores de serviços de saúde do Brasil que muitas vezes trabalham em condições precárias, sem material adequado e na maior parte das vezes com salários muito baixos.
Na primeira década do século XXI surgiram novos tratamentos para o ceratocone, desde o implante de anel intraestromal que foi equivocadamente chamado de a única cura para o ceratocone até então, passando pelo tratamento do cruzamento de colágeno corneano com riboflavina sob luz ultravioleta (crosslinking ou CXL) e mais recentemente no final de primeira década deste milênio o tratamento por microondas, chamado Keraflex. Houve também um significativo avanço em relação aos materiais e desenhos das lentes especiais para o ceratocone, possibilitando melhores adaptações mesmo nos mais avançados casos.
Implante de Anel Intraestromal
O implante de anel intraestromal foi aprovado apenas para ceratocone de grau III e IV quando o transplante é o procedimento mais indicado quando não há possibilidade de adaptação de lentes de contato rígidas (RGP's) especiais. No entanto o anel tem indicação melhor nos casos iniciais ou moderados de ceratocone onde ele pode realmente deter o avanço da ectasia e oferecer uma melhor regularidade da superfície corneana e assim proporcionar uma melhor acuidade visual com óculos por exemplo. Nem sempre isso é possível e a adaptação de lentes de contato torna-se novamente necessária, geralmente lentes RGP's especiais. Uma das maiores queixas dos especialistas em adaptação de lentes especiais no mundo tem sido sobre a dificuldade maior de adaptar lentes em pacientes submetidos ao implante de anel devido a uma elevação criada pelo segmento geralmente inferior do mesmo, que provoca um toque da lente na córnea, levando a ceratites recorrentes e eventualmente erosão de córnea. A partir deste momento o especialista irá recorrer ao que tem em seu arsenal de lentes afim de sobrepor estas dificuldades, geralmente ele poderá utilizar o subterfúgio do sistema piggyback (lente rígida por cima de uma gelatinosa ou descartável), lente especiais pós-implante de anel intracorneano ou ainda lentes semiesclerais ou esclerais.
Crosslinking (CXL)
O crosslinking tem também importante papel no tratamento preventivo da progressão do ceratocone, pois o procedimento padrão segundo seu protocolo oficial (Protocolo de Dresden) demonstrou que na maior parte dos casos há uma estabilização da ectasia corneana, impedindo assim o ceratocone de progredir. Em um percentual menor de casos há também uma pequena diminuição da curvatura maior da ectasia, de 1.5 a 2 dioptrias, mas é afirmado que esta manifestação não pode ser garantida que irá ocorrer. O procedimento consiste em fazer uma raspagem removendo parte do epitélio corneano central e logo em seguida a aplicação de riboflavina em gotas sob uma luz ultravioleta, com exposição controlada (tempo, distância e frequência). Alguns dos incômodos do procedimento é que ele dói no dia seguinte (o paciente é orientado a administrar analgésicos) e a visão do paciente pode ficar com haze corneano duarante algumas semanas e as vezes meses (visão leitosa com menos definição).
Uma questão importante a ser observada é que com a popularização da técnica está também ocorrendo uma falta de critério por parte de alguns cirurgiões. Segundo relatos de portadores de ceratocone o procedimento é muitas vezes oferecido sem que exista um acompanhamento para saber se de fato há comprovação inequívoca de progressão do ceratocone o que segundo o protocolo oficial é fundqamental para a correta indicação do procedimento. Outro fator importante a ser observado é que eventualmente topografias de pacientes com astigmatismos regulares elevados, a favor da regra, estão sendo confundidos com ectasia corneana (ceratocone) apenas pela aparência vermelho-laranja da topografia, mesmo o aspecto da mesma seja o famoso aspecto borboleta. No caso de dúvida sobre o diagnóstico é crucial fazer uso de recursos mais precisos que a topografia, como paquimetria ultrassônica e a tomografia de segmento anterior (ex. Pentacam). Estes exames podem ajudar o especialista a estudar melhor o caso e assim ter a prudência necessária antes de indicar um tratamento sem necessidade.
Crosslinking Transepitelial
Uma alternativa ao crosslinking tradicional tem sido frequente motivo de discussões na comunidade científica mundial. Os idealizadores do Protocolo de Dresden, Dr. Theo Seiler e Wollensak, afirmam que o crosslinking para ser efetivo necessita a remoção do epitélio. Entretanto alguns especialistas como Dr. Brian Boxer nos EUA e Roberto Pinelli (ITA) tem experimentado utilizar uma ribflavina modificada que permite segundo eles que a riboflavina ultrapasse a barreira do epitélio, tendo os benefícios do crosslinking com uma menor agressão ao epitélio que não é removido. Embora a técnica seja também interessante carece de maiores informações e de um estudo controlado e amplo o qual possa ser avaliada a eficácia e segurança da técnica.
Protocolo de Atenas
Uma outra filosofia de tratamento originou-se e desviou-se do protocolo oficial do crosslinking, é a utilização de técnicas combinadas. Desde o surgimento do Protocolo de Atenas, alguns cirurgiões desenvolveram teorias e métodos combinados de maneira a criar o conceito de remodelamento corneano, utilizando-se por exemplo da combinação de implante de anel e crosslinking, cirurgia refrativa e crosslinking ou mesmo as três técnicas combinadas. O resultado é que desconhece-se qualquer estudo sério (ao menos até aqui eu desconheço) sobre a combinação de técnicas e o seu real valor como técnica reconhecida. Parecem mais técnicas pessoais as quais não há um protocolo específico e o especialista desenvolve a técnica segundo o seu entendimento ou de acordo com cada caso. Desconheço a viabilidade de essa falta de protocolos específicos de tratamento terem uma validade e importância científica, salvo se já existirem estudos a ser publicados no futuro, o que é perfeitamente possível.
Keraflex + CXL Acelerado
Desde que o Keraflex foi anunciado em 2010, assim como as técnicas que a antecederam, criou-se uma expecativa muito grande pois pela primeira vez uma técnica realmente produziu uma redução significativa do ceratocone. Nesta técnica a porção central da córnea é submetida a um disparo de baixa freqüência de microondas fazendo uma lesão central e ao mesmo tempo resfriando o restante da córnea como proteção. Em seguida é realizado o crosslinling acelerado de 3 minutos (ao contrário da técnica padrão de 30 minutos), para que seja mantida nesta nova condição. Os únicos relatos disponíveis da técnica mostram que houve uma redução drástica da miopia causada pelo ceratocone mas parte do astigmatismo irregular permanece ou tomou outras formas ao exame da topografia. Interessante que este astigmatismo deve ainda prejudicar a visão significativamente, mesmo que a acuidade visual seja melhor que antes devido a menor miopia. Os poucos casos publicados referem um aplanamento de cerca de 6 dioptrias, e a indicação em casos moderados a altos pode proporcionar uma melhor acuidade visual para óculos ou uma melhor adaptação de lentes de contato. Em 2011 um brasileiro entrou em contato comigo, ele foi submetido ao tratamento na Inglaterra, 12 meses após o procedimento ele referia que tinha uma flutuação da visão ao longo do dia. Resta saber se houve uma diminuição de resistência biomecânica ou da histerese corneana.
O procedimento é realizado apenas em "trials" em centros específicos mas os especialistas referem que mais estudos são necessários para saber se é melhor uma energia maior e de menor duração ou uma energia menor de maior duração. Outras conclusões dos especialistas é que o crosslinking acelerado não é suficiente para impedir a regressão ou seja, uma volta do aspecto de forma cônica da córnea. Basicamente os achados (positivos e negativos) mostram-se até então:
(+) Método excelente para aplanar a córnea
(+) Procedimento minimamente invasivo e rápido
(+) Melhora a acuidade visual não corrigida
(+) Aumenta a tolerância a óculos e lentes de contato
(-) Não é ainda um método preciso
(-) Crosslinking é insuficiente para prevenir a regressão
Os estudos mostram claramente que os melhores resultados ocorrem somente se o crosslinking for realizado de forma combinada imediatamente após a aplicação do Keraflex e mesmo assim ocorre uma regressão ou seja, volta em parte do aspecto de forma cônica da córnea após seis meses do tratamento. Se a técnica do Keraflex for aplicada sozinha em seis meses a córnea volta ao seu estado semelhante ao pré-cirúrgico, e se o crosslinking for aplicado três dias depois os resultados também não são bons.É sem dúvida uma técnica promissora que poderá tornar-se mais uma forma de tratamento para o ceratocone previnindo a necessidade de um transplante de córnea, mas são necessários mais estudos e acompanhamento de mais pacientes por períodos maiores para aprimorar a técnica.
Transplante de Córnea
Em relação ao transplante de córnea, é inegável que os métodos e técnicas evoluiram muito do século XX para cá, passando pela utilização do femtosecond laser para realizar a preparação do botão doador e do leito receptor, isso permite uma melhor cicatrização e um resultado com menor astigmatismo devido ao melhor encaixe de ambos. Outra técnica que também é excelente é o transplante lamelar que possibilita algumas variações e tem demonstrado bons resultados. O fato de estas técnicas invasivas se tornarem mais sofisticadas possibilitam melhores resultados na qualidade e no tempo de cicatrização, o que por sua vez proporciona uma superfície ocular mais harmônica e menos irregular oferecendo ao paciente uma melhor acuidade visual sem correção e com correção. É inegável que os avanços obtidos nas novas técnicas de transplante e
mesmo na técnica tradicional manual que houve um avanço importante que
representa um salto de tecnologia desde as últimas 3 décadas. A
oftalmologia Brasileira está em termos de igualdade com países de
primeiro mundo em termos de tecnologia.
Ocorre que são poucos os casos que o transplante de córnea é necessário. O ceratocone geralmente começa a estabilizar a patir dos 25 anos aproximadamente do indivíduo com períodos mais esparsos e menos significativos de progressão, com uma tendência a estabilizar entre 30 e 40 anos de idade do paciente. Na maior parte dos casos os pacientes com ceratocone podem ser bem adaptados com lentes rígidas gás permeáveis especiais, desde que estas tenham uma qualidade e tecnologia suficientes para oferecer conforto, ótima acuidade visual e especialmente o equilíbrio fisiológico da córnea.
Lentes de Contato Especiais
As lentes de contato são ainda responsáveis pela mais utilizada forma de reabilitar a visão no ceratocone, na verdade de todas as técnicas é a única que oferece com maior precisão a melhor acuidade visual possível de se obter. Muitos pacientes portadores de ceratocone tem queixas de desconforto ou incapacidade de se adaptar com lentes rígidas especiais, em parte por que uma significativa parte dos especialistas não dá a mesma importância a esta sub-especialidade da oftalmologia que são as lentes especiais em córneas irregulares. Muitos simplesmente nem oferecem a possibilidade de adaptação de lentes pois são especialistas em cirurgias e tem a tendência a oferecer procedimentos cirúrgicos menos ou mais invasivos o que é natural levando em conta sua formação mais intervencionista. Muitos outros oftalmologistas contam ao menos com uma linha de lentes especiais para ceratocone de ao menos um fabricante, isso ajuda mas nem sempre será o bastante para ter uma maior flexibilidade em recursos de desenhos de diferentes fabricantes. Um fator que muitos pacientes se queixam é a questão do desconforto, mesmo assim estes especialistas orientam o paciente a fazer a adaptação mesmo que isso seja uma tortura para alguns pacientes. Isso é facilmente explicável na medida que praticamente nenhum paciente consegue se adaptar a um "caco de vidro" no olho, e ao contrário disso, orientar um paciente a fazer a adaptação com uma lente que ele sinta a presença mas que não machuque é uma tarefa muito mais simples de ser seguida com sucesso.
Lentes especiais boas e corretamente adaptadas são responsáveis por milhares de adaptações bem sucedidas as quais muitos pacientes convivem há anos, há décadas e com conforto, boa acuidade visual e sem nenhum comprometimento corneano ou seja, é mantida a saúde fisiológica da córnea na sua integridade.
Meu amigo Dr. Renato Ambrósio Jr. o qual tenho grande admiração pelo seu trabalho e conhecimento científico já duas vezes me perguntou se eu como estudioso em lentes especiais para o ceratocone acreditava que a adaptação de lente de contato rígida (RGP) evita a progressão do ceratocone. É uma pergunta simples e direta mas de resposta mais complexa, a rigor acredito pela evidência história que nossa equipe médica do IOSB dispõe de mais de 40 anos de acompanhamento de pacientes com ceratocone de que não, a lente de contato não é garantia de que o ceratocone não irá progredir. No entanto também baseado na mesma evidência histórica mencionada acima observa-se que os pacientes que são corretamente adaptados com lentes rígidas e com sucesso, que são bem orientados e que fazem revisões de rotina de no mínimo a cada 18 meses, apresentam uma estabilização maior se comparada com aqueles que não utilizam lentes. Embora seja necessário um estudo com controle para apresentar um resultado mais preciso e confiável, a simples constatação pela quantidade e pelo longo tempo de amostragem é possível estabelecer esta relação. Isso não significa que não exista progressão, ela pode ocorrer e nesse caso a lente precisa ser atualizada. Mas se comparado um mesmo paciente de ceratocone bilateral que por algum motivo usa lente em um dos olhos apenas existe uma chance maior do caso progredir mais no olho sem lente. Espero que isso explique em parte a razão pela qual eu afirmo que a pergunta simples mas a resposta é complexa.
Uma das teorias é de que o paciente bem adaptado toca menos nos olhos, tem maior cuidado em não coçar os olhos enquanto no outro por forçar a visão e por estar sem lente tem uma tendência maior a coçar o olho mais do que o outro adaptado com lente. A lente bem adaptada não deve tocar o ápice da córnea, ela deve produzir um leve afastamento apical para manter a integridade fisiológica da córnea, o ápice é a área onde a córnea fica mais exposta se em contato com a lente, ao piscar esse contato sofre maior força o que poderá levar o paciente a uma ceratite central, erosão de córnea e mesmo uma úlcera de córnea. Uma adaptação bem feita evita esse contato com o ápice e produz uma distribuição do filme lacrimal ou mais homgênea possível, permitindo uma leve mobilidade ao piscar e a perfeita, adequada e necessária troca lacrimal.
Lentes esclerais
Uma outra opção de adaptação de lentes no ceratocone, mesmo nos casos de pós-transplante ou de outras ectasias corneanas como a degeneração marginal pelúcida e o ceratoglobo, são as lentes esclerais modernas que são fabricadas em materiais de altíssima oxigenação, são lentes que não tocam (não devem tocar) a córnea e nem o limbo em sua integridade, repousando suavemente sobre a esclera (porção branca dos olhos). Estas lentes são inseridas nos olhos preenchidas com uma solução salina sem conservantes e esta "reserva aquosa" cria um ecossistema saudável entre a lente e os olhos. A troca lacrimal é necessária afim de manter o oxigênio e demais componentes da lágrima penetrando nesta reserva, mantendo-a renovada para que a córnea permaneça saudável. As lentes esclerais praticamente resolvem aqueles casos emque nenhuma lente de nenhum fabricante foi possível obter uma boa adaptação ou onde o paciente tem queixa de desconforto muitas vezes associada a uma instabilidade do filme lacrimal. As LC Esclerais neste caso também tem uma utilização terapêutica pois promovem a hidratação e oxigenação necessárias para que o paciente fique com os olhos saudáveis.
Curso Avançado Saul Bastos de Lentes de Contato Especiais
Este ano temos o Curso Avançado Saul Bastos de Lentes de Contato Especiais que será realizado no Centro de Eventos do Hotel Plaza São Rafael em Porto Alegre, nos dias 14 e 15 de Dezembro. Este curso conta com alguns dos maiores especialistas em adaptações de lentes especiais em casos de córneas irregulares e tem um programa direcionado a casos de alta complexidade com foco na transferência de habilidades de como resolver os mais complexos casos de adaptações especiais. Além de ter uma série de sessões voltadas as adaptações de lentes RGP's especiais o curso terá sessões e palestras voltadas também para a adaptação de lentes esclerais.
O curso é voltado a oftalmologistas já iniciados na adaptação de lentes especiais que deseja aperfeiçoar a sua técnica e aprender sobre novas tecnologias bem como novas técnicas. O curso muito embora seja avançado é também uma oportunidade para aqueles que estão iniciando na adaptação de lentes rígidas para aprender com os mais experientes como fazer adaptações especiais em ceratocone, pós-transplante, pós-cirurgia rerativa entre outros. Convido também os oftalmologistas dedicados a cirurgias e tratamentos para o ceratocone a participar deste curso, será uma excelente oportunidade para trocar idéias sobre os diferentes métodos de tratamento e para eles conhecerem mais profundamente o que uma boa adaptação proporciona aos pacientes, fica então o convite.
Em breve o website do Curso Avançado Saul Bastos de Lentes de Contato Especiais estará online com maiores informações sobre o programa, palestrantes, inscrições e reservas.
Luciano Bastos Diretor & Instrutor Clínico de Lentes de Contato - IOSB Diretor & Consultor em LC RGP's Especiais - Ultralentes
Nos dias 14 e 15 de Dezembro será realizado o Curso Avançado Saul Bastos de Lentes de Contato Especiais, junto ao Centro de Eventos do Hotel Plaza São Rafael em Porto Alegre com apoio da Sociedade Riograndense de Oftalmologia (SORIGS) e da Sociedade Brasileira de Lentes de Contato, Córnea e Refratometria (SOBLEC). O nome do curso é uma homenagem ao Dr. Saul Bastos, um dos pioneiros na contatologia médica no Brasil e na reabiltação visual de portadores de deficiências visuais.
O curso destina-se especialmente aos oftalmologistas já experientes na adaptação de lentes de contato no ceratocone, não é um curso básico e não é um evento de apenas apresentação de casos. O curso Avançado Saul Bastos tem como foco a transferência de habilidades na fina arte das adaptações de lentes especiais em casos de alta complexidade como o ceratocone dos iniciais aos mais extremos, casos de pós-implante de anel intraestromal, pós-transplante de córnea e de alterações da superfície ocular.
A idéia é preparar o oftalmologista que já tem experiência em adaptações de lentes rígidas especiais com as mais modernas técnicas, exames e recursos tecnológicos de lentes especiais para resolver os casos de alta complexidade que surgem no seu consultório. Muitos especialistas ficam as vezes frustrados pelas dificuldades em conseguir uma boa adaptação, o paciente fica decepcionado e é encaminhado a outro especialista ou busca por si próprio outros especialistas em busca de uma solução melhor para o seu caso.
Dentre as opções de tratamento do ceratocone, a adaptação de lentes de contato rígidas (RGPs) especiais é ainda responsável por mais de 50% dos tratamentos que oferecem a melhor acuidade visual e melhor qualidade visual de todos os demais tratamentos em todo o mundo. As opções cirúrgicas menos invasivas geralmente são bastante limitadas e tem melhores resultados nos casos iniciais, o transplante de córnea que já é uma técnica mais agressiva por ser naturalmente mais invasiva vem melhorando incrivelmente nas últimas décadas mas também tem as suas limitações e o resultado final somente se sabe depois do período de cicatrização do procedimento. Em alguns casos os pacientes serão surpreendidos pela necessidade de lentes de contato especiais para corrigir a visão devido ao astigmatismo irregular resultante após a cicatrização. A adaptação de lentes gelatinosas, mesmo as descartáveis e até mesmo as de silicone hidrogel representam um risco extra ao paciente pelo risco maior de contaminação e pela dificultada hidratação da superfície ocular.
Interessante que pacientes com ceratocone bem adaptados são pacientes extremamente fiéis ao seu especialista, são capazes de usar lentes RGPs por décadas sem necessidade de submeter-se a procedimentos cirúrgicos e sem maiores complicações como ceratites, erosão de córnea e úlcera de córnea. O ceratocone tende a ter episódios de progressão mais esparsos e mais raros a partir dos 25 anos do paciente, especialmente se bem adaptado com suas lentes e se bem orientado pelo especialista. A qualidade de vida de pacientes como estes é praticamente a mesma de alguém com sem problemas de visão, exceto quando ele retira suas lentes ele volta a ter dificuldades com a visão.
É uma grande oportunidade para que oftalmologistas de todo o país possam reunir-se com alguns dos mais experientes e renomados especialistas em reabilitação visual com lentes especiais. Haverá um tempo após cada sessão aberto para perguntas, dicussão de casos, tirar dúvidas e estabelecer novas relações profissionais. É também uma grande oportunidade para reciclagem, para ver as novidades em materiais e lentes que diversos fabricantes estarão expondo, assim como os representantes de laboratórios farmacêuticos com novos produtos sendo lançados.
Este curso foi elaborado para dar oportunidade para que os milhares de pacientes que sofrem no dia-a-dia com problemas de visão devido ao ceratocone possam ter melhores opções de reabilitação visual com conforto e preservação da saúde fisiológica da córnea. Comente sobre o curso com o seu oftalmologista, ele terá uma oportunidade histórica de participar de um evento que destina-se unicamente a aumentar ainda mais a sua capacidade de resolver os mais complexos casos e mesmo os casos considerados não avançados com ainda melhores resultados. O website do Curso Avançado Saul Bastos estará disponível em breve e conterá maiores informações e detalhes sobre o evento. O Curso já dispõe de uma página no Facebook, na qual vocês podem acessar pelo link abaixo:
Será uma grande satisfação receber os oftalmologistas verdadeiramente interessados na reabilitação visual com lentes de contato especiais. Assim que o website do curso estiver no ar, as informações de inscrições, hospedagem, passagens aéreas e detalhes do curso estarão disponíveis. Também haverá oportunidade para aqueles que quiserem aproveitar sua vinda ao sul para conhecer a serra gaucha, com pacotes turísticos para as cidades de Gramado e Canela.
Colabore na divulgação deste curso, na sua próxima consulta comente com ele sobre o evento.
Obrigado pelo seu interesse e e pela oportunidade. Em breve novidades sobre o curso e também novas postagens no Blog C&T.
Luciano Bastos Organizador Curso Avançado Saul Bastos de Lentes de Contato Especiais
Embora exista uma classificação exata para os tipos de ceratocone quanto ao seu formato, muitas vezes o médico especialista em lentes de contato depara-se com casos que tornam-se mais complexos do que realmente parecem e a adaptação de lentes torna-se mais difícil e de maior complexidade. A classificação do ceratocone consiste em:
Subclínico ou Frusto Vs. Inicial: É extremamente importante observar e diferenciar sempre que possível o ceratocone inicial do ceratocone subclínico. Pacientes jovens que apresentem suspeita de ceratocone são geralmente os mais difíceis de diagnosticar. São aqueles casos onde o ceratocone pode ser apenas um astigmatismo que está presente e que pode progredir mas sem ser necessariamente uma ectasia corneana. O ceratocone inicial geralmente é o mais difícil de diagnosticar com precisão mesmo utilizando-se de topografia ou mesmo de uma tomografia de segmento anterior para colaborar na investigação.
Embora existam casos documentados na literatura de ceratocone tardio que pode surgir até mesmo por volta dos 30 anos ou mais do paciente, a maior parte dos casos de ceratocone surgem na adolescência e alguns na puberdade. Antes de que seja oferecido ao paciente e seus familiares opções de intervenções cirúrgicas mesmo que as menos invasivas é importante haver um acompanhamento através de topografias ou tomografias de segmento anterior para saber episódios de progresão estão em curso. Pacientes jovens e com diagnóstico inicial devem ser orientados a não coçar os olhos, deve-se observar a qualidade e quantidade de lágrima e a prescrição sempre que necessário de lubrificantes em forma de lágrimas artificiais e de antialérgico ocular se necessário.
O ceratocone frusto tem a aparência topográfica ou então pode apresentar-se como ceratocone posterior quando utilizada a tomografia de segmento anterior (como o Pentacam), ele fica na mesma e tem nenhum ou mínimas alterações em seguimentos realizados a cada ano. Este caso não tem indicação cirúrgica de crosslinking, é importante não oferecer este procedimento a um paciente que tem seu caso estabilizado, aliás somente o acompanhamento e a constatação inequívoca de progressões subsequentes deve ser o motivo de indicação deste procedimento, segundo o Protocolo de Dresden (protocolo original do crosslinking).
Obs. Pacientes com ceratocone inicial tem uma boa indicação para adaptação de lentes RGPs especiais ou não, principalmente se não obtiverem uma acuidade ou qualidade visual com óculos. É fundamental importância que estes pacientes sejam adaptados corretamente e com lentes de alta qualidade, além de serem corretamente orientados a como proceder com o ceratocone e com suas lentes. Embora o uso de lentes de contato rígidas por sí não evite que o ceratocone evolua (se ele tiver que progredir, ele o fará) a adaptação de lentes de forma inadequadas (mal planejadas, com toque, lentes de má qualidade) poderão provocar estímulos na superfície corneana, lesionar o epitélio corneano e fazer com que o ceratocone progrida ou então provocar lesões e até mesmo erosão de córnea, eventualmente resultando em cicatrizes e pequenas opacidades iniciais (leucoma ou nébula).
As lentes de contato de boa qualidade e alta tecnologia são as melhores ferramentas para que o paciente possa restabelecer a sua vida sem maiores transtornos, quando bem adaptadas estas lentes proporcionam uma visão muitas vezes perfeita (mesmo em estágiuos avançados), conforto e especialmente mantém a saúde fisiológica da córnea sem maiores riscos quando comparados a qualquer outra técnica.
Tipo Nipple: A topografia apresenta uma área em forma de bico, pequena e de cores mais "quentes" com curvatura mais alta na região central ou para-central da córnea.
Fig.1 Ceratocone do tipo Nipple.
Obs. Quando este tipo de ceratocone está muito deslocado do eixo visual do paciente (centro da pupila) é comum o paciente ter queixas de reflexos mesmo com a lente bem adaptada, são casos onde o especialista precisa personalizar a adaptação e incorporar recursos de controle de aberrometria na lente para ao menos amenizar estes sintomas para que o paciente tenha mais conforto visual, especialmente a noite.
Tipo Oval: Estes casos apresentam uma topografia na qual a área ectásica (cone) é mais larga e ovalada geralmente verticalmente. O formato da imagem pode variar muito neste tipo de ceratocone.
Fig. 2 Ceratocone Oval com ápice com localização para-central inferior.
Obs. O que a literatura não fala é que este tipo de ectasia varia muito quanto ao tamanho da área afetada e também do formato que ela apresenta. Para adaptação de lentes quando o formato é maior, geralmente uma lente Rígida Gás Permeável maior torna-se necessária e o controle de aberrometria incorporado especialmente se a centralização da lente estiver muito deslocada do eixo visual. As chances de uma lente muioto pequena deslocar-se damsiadamente quando o paciente pisca e olha para os lados é maior, o que pode fazer com que as lentes caiam ou desloquem-se nos olhos, o que é desconfortável para o paciente.
Tipo Globoso: Muito raro, este tipo caracteríza-se por ser de maior extensão e pode envolver praticamente toda a córnea. O ceratocone globoso tem uma área de afinamento central de maior diâmetro e pode apresentar uma certa simetria em relação aos demais tipos, embora apresente da mesma forma um astigmatismo irregular e uma miopia muito alta quando em estágio avançado. A adaptação de lentes esclerais ou transplante de córnea podem ser as únicas alternativas para melhorar a acuidade visual.
Diagnóstico Diferencial
Temos observado no IOSB que há casos onde o paciente tem o diagnóstico de ceratocone mas observando a topografia e sob o exame clínico no biomicroscópio o diagnóstico não é confirmado. Não é incomum alguns casos o paciente ter um astigmatismo miópico significativo o que faz com que na topografia o padrão visual de borboleta característico do astigmatismo corneano apresente-se verticalmente com colorações amarelas, laranja e até mesmo vermelha. Estes pacientes as vezes já convivem com "estigma" do ceratocone há alguns anos ou meses na melhor das hipóteses e alguns tiveram indicação cirúrgica de crosslinking, implante de anel e até mesmo transplante de córnea. Quando o astigmatismo é elevado, pode haver alguma irregularidade da córnea mas isso não caracteríza o ceratocone, simplesmente é astigmatismo elevado. Em certos casos deve-se ao menos solicitar exames mais complexos como a tomografia (com M de Maria) de segmento anterior que é um exame de maior especificidade e sensibilidade. Este exame proporciona um número bem maior de informações precisas e uma infinidade de mapas que são de grande ajuda na interpretação, diagnóstico e conduta de casos como ceratocone, ajudando na diferenciação entre um ceratocone inicial e astigmatismo elevado. Nós utilizamos os exames de Pentacam quando há necessidade de maiores informações em relação a topografia (com P de Paulo).
Fig.3 Astigmatismo Elevado a favor da regra as vezes confundido com ceratocone.
Na figura 3 observamos um caso de astigmatismo elevado a favor da regra no qual eventualmente um oftalmologista que não tem muita experiência em córnea pode chegar a um diagnóstico de ceratocone, especialmente em virtude da coloração muito "quente" apresentada.
Nestes casos de astigmatismo elevado a adaptação de lentes Rígidas Gás Permeáveis (RGPs) é mandatória se o paciente não tolera os óculos ou quer outra opção. Em astigmatismos elevados as lentes gelatinosas não oferecem uma acuidade visual satisfatória e a lente RGP poderá ser fabricada tórica ou bitórica para uma melhor adaptação. Entretanto como nem sempre o astigmatismo corneano é perfeito em relação aos eixos sendo muitas vezes oblíquo a adaptação de lentes RGPs corneanas mostra-se muito mais difícil. É possível utilizar prisma de lastro para evitar que a lente gire saindo do eixo correto quando o paciente pisca mas a experiência tem mostrado que nestes casos é realmente difícil manter a lente sem que exista algum movimento e consequentemente variação na visão do paciente quando ele pisca ou olha para os lados. Se ele deitado de lado a lente sairá totalmente do eixo correto e a visão ficará ruim.
Uma ótima alternativa atualmente para a adaptação de lentes em casos de astigmatismo elevado são as lentes esclerais que consiste em uma lente rígida (gás permeável) de diâmetros entre 17.5 e 20.5 mm que não tocam a córnea e repousam suavemente sobre a esclera. Vamos falar mais nestas lentes em seguida.
Outras Dificuldades na Adaptação de Lentes de Contato RGPs em Ceratocone
Córneas Excessivamente Curvas Inferiomente
Existem casos em que a córnea do paciente com ceratocone já é originalmente bastante curva e as lentes presentes na caixa de prova não são suficientes para apresentar um melhor padrão de adaptação. Em alguns casos de córnea muito curva com ceratocone posicionado para-central inferior é praticamente impossível obter uma lente que não fique posicionada inferiormente. Isso deve-se ao efeito gravitacional e pela própria posição da córnea com o paciente com a cabeça em posição normal, a lente ainda sofre a ação da pálepbra superior que a empurra também para baixo. Embora em alguns casos seja viável uma adaptação ultrapersonalizada (como costumo chamar) é mandatória a utilização de controle de aberrometria na lente em relação a pupila do paciente, pois pelo fato da lente ficar muito afastada do eixo visual e ainda mais a noite quando a pupila dilata os reflexos podem causar um transtorno ao paciente. A lente Ultracone tem um dos melhores controles de aberrometria que conheço em lentes para ceratocone, mas é preciso saber quando e como utilizar. Outras características a serem observadas são a fissura palpebral do paciente, a resistência e flexibildade das pálpebras e o diâmetro da córnea de limbo-a-limbo.
Embora os oftalmologistas que adaptam as lentes Ultracone, fabricadas pela Ultralentes saibam que podem contar com recursos de personalização e que podem alterar as curvas (planejar alterações no desenho original da lente Ultracone) de forma a personalizar a adaptação as vezes é interessante discutir o assunto com o laboratório e sempre quando possível fotografar e/ou filmar o teste de lentes com fluoresceína para que assim eles possam enviar ao laboratório.
Síndrome de Olho Seco
Pacientes com instabilidade do filme lacrimal devem ser bem observados e conduzir testes para avaliação da lágrima. Nestes tempos há praticamente uma epidemia de síndrome de olho seco evaporativo, as causas são diversas mas podemos observar que o uso de computador por períodos de tempo extensos (paciente não pisca), uso de ar condicionado (carro, escritório e casa), calefação (na região sul é comum), a poluição entre outros fatores. Em casos mais graves é importante avaliar se não existe nenhuma outra patologia associada de ordem reumato-oftalmológico como síndrome de Stevens Johnson, síndrome de Sögren, etc ou menopausa, uso de medicamentos dermatológicos como Roacutan pode causar temporariamente olho seco e com isso agravar a patologia.
Estes casos de olho seco podem ser tratados de forma muito eficiente com as lentes esclerais que possuem além da capcidade de corrigir a visão com ótimos resultados, ser utilizada também de forma terapêutica para aliviar totalmente os sintomas de olho seco mais severo. Quando o uso de lubirificantes não é suficiente ou se o paciente tem que fazer uso crônico é interessante procurar outras alternativas como lubrificantes sem conservantes para eliminar a toxicidade dos mesmos que acabam gerando um efeito rebote na lubrificação e hidratação ocular.
Com estas informações o laboratório Ultralentes (através da consultoria digital) poderá planejar uma lente absolutamente personalizada para sobrepor as dificuldades observadas no teste inicial e registrados em imagem (sempre que possível). No IOSB isso já feito diretamente em todos os casos, sempre que necessário procuramos personalizar as adaptações de maneira a obter o melhor conforto, a melhor acuidade visual possível de obter e especialmente mantendo a saúde fisiológica corneana. Entretanto nem sempre os casos de maior complexidade pode ser resolvidos de maneira adequada com estes recursos em lentes rígidas corneanas.
As Lentes Esclerais SB e Semiesclerais SSB
Em 2001 meu pai (Dr. Saul Bastos) solicitou que eu estudasse a tecnologia das lentes esclerais, foi desde este ano então que iniciei uma série de contatos e extensa pesquisa em relação a estas lentes. Entre 2005 e 2006 fabricamos os primeiros protótipos destas lentes mas foi somente em 2008 que os primeiros 12 pacientes foram adaptados. Após o seguimento de um ano destes pacientes com nenhuma complicação lançamos oficialmente no dia 30 de Julho de 2009 as lentes semiesclerais SSB e as esclerais SB. Atualmente estas lentes fazem parte do arsenal de tecnologia que dispomos para resolução de casos de alta complexidaqde, não somente como correção visual mas como pela excelente utilização terapêutica que estas lentes proporcionam em uma série de patologias da superfície ocular.
Atualmente com as lentes semiesclerais SSB (Semi-Scleral Bastos) de diâmetros entre 16.0 e 18.0 mm e as lentes esclerais SB (Scleral Bastos) de diâmetros entre 18.0 e 21.0 mm. tem resolvido praticamente todos os casos que antes tinhamos grande dificuldade e até mesmo alguns pacientes adaptados com sucesso com os medelos de lentes corneanas estão sendo readaptados com as lentes esclerais quando julgamos que possa haver alguma vantagem para o paciente. O alto conforto proporcionado por estas lentes não deve ser utilizado para adaptar todos os casos nos quais encontramos dificuldade, é pela ética do interesse do paciente que devemos nos orientar sempre. Quando é possível adaptar as lentes RGPs com sucesso, mesmo que tenhamos que utilizar os recursos de personalização esse deve ser o caminho inicial pois o custo para o paciente é menor, a facilidade de colocar e remover a lente é maior e mais rápida. A utilização de lentes esclerais na adaptação de casos de ceratocone deve ter indicação quando não é realmente possível adaptar com bom padrão e conforto as lentes RGPs corneanas, mesmo a Ultracone ultrapersonalizada ou qualquer outra das boas lentes para ceratocone de outros fabricantes existentes no mercado.
As lentes esclerais SB possuem desenhos ultramodernos baseados na experiência de mais de 40 anos acumulados na reabilitação visual de pacientes uso de lentes especiais. As lentes de teste possuem curvaturas que vão desde os casos de córneas excessivamente planas até os mais avançados e extremos casos de ceratocone. De uma forma compacta ou completa não é necessário um número grande lentes na caixa de prova completa, entretanto estas lentes tem um custo maior devido a sua alta complexidade de fabricação e por esta razão são também de maior custo para o paciente. O interessante é que os pacientes tem um benefício tamanho que isso compensa estemaior custo. A Ultralentes fabrica todas as suas lentes com tecnologia desenvolvida na própria empresa, com extensa pesquisa clínica e científica em parceria com oftalmologistas especializados no Brasil e no exterior. Naturalmente que grande parte do conhecimento desta tecnologia vem dos EUA e Europa mas o importante é que não depende de transferência de tecnologia e licenças para fabricar umas das melhores lentes RGPs e Esclerais do mundo.
O laboratório Ultralentes trabalha em conjunto com oftalmologistas credenciados em diversos estados do Brasil, entretanto nem todos estão credenciados ou aptos a adaptar toda a linha de lentes da Ultralentes, portanto é possível pedir orientação ao laboratório para saber se o oftalmologista da sua cidade ou região tem disponível a lente que melhor atenderá suas necessidades. Muitos pacientes de todo o Brasil tem procurado o Instituto de Olhos Dr. Saul Bastos (IOSB) para resolver suas dificuldades, especialmente aqueles que já fizeram inúmeras tentativas sem sucesso. O IOSB conta com uma estrutura especial para atender pacientes de outros estados, oferecendo suporte em hoteís conveniados próximos ao instituto e organizando horários e datas especiais sempre que possível e mediante consulta prévia.
Oftalmologistas interessados em cadastrar-se junto a Ultralentes basta entrar em contato, para que o devido credenciamento seja efetivado o oftalmologista interessado deve possuir prévia experiência comprovada na adaptação de lentes RGPs e necessariamente adquirir as caixas de prova para poder realizar os testes. A indicação de um oftalmologista já credenciado tem bastante peso na avaliação para cadastro e credenciamento, especialmente se este tiver feito curso onde os credenciados apresentaram trabalhos nesta área de lentes especiais.
Luciano Bastos
Diretor & Instrutor Clínico de LC Especiais IOSB
Diretor & Consultor em LC RGPs Especiais Ultralentes
Um dos motivos que me leva a escrever este artigo é o fato de que recebemos mensalmente no IOSB diversos novos pacientes com ceratocone que nos procuram para receber ajuda. Estes pacientes, além de Porto Alegre, vem de outras cidades do interior e de outros estados a procura de uma solução para o seu caso.
A dificuldade mais comum é não conseguirem se adaptar as lentes de contato rígidas. Embora ao entrar em contato com o IOSB estes pacientes sejam orientados a ficar por pelo menos 48/72 hs sem usar lentes rígidas e de 7 dias se forem lentes gelatinosas muitas vezes eles vem usando suas lentes ou não as retiram com a antecipação recomendada. Isso é necessário para que a córnea esteja relaxada e sem alterações topográficas induzidas pela lente de contato do paciente. Quando o paciente não consegue usar por não se adaptar é bem mais fácil, os testes podem ser realizados e em 99,5% dos casos uma adaptação personalizada da lente Ultracone (seja o modelo original, PCR, SSB ou Ultracone SB Escleral) resolve o problema e o paciente tem uma excelente adaptação.
Quando o paciente não retira as lentes é comum que a córnea esteja com a topografia alterada pela lente e as vezes existam lesões que impeçam os testes em um primeiro momento. É compreensível que muitos não suspendam o uso de suas lentes antes do exame por sentirem-se incapazes mesmo de deslocarem-se ou de realizar suas tarefas de rotina e especialmente profissionais sem as suas lentes. Frequentemente vemos pequenas lesões do epitélio corneano e as vezes erosões mais sérias e úlcera de córnea. Quando há lesões sérias o paciente incialmente tem que ser tratado antes para que possa ser realizado um teste confiável e seguro.
É de grande importância que algumas questões sejam esclarecidas e desmistificadas, tais como:
Olho vermelho usando lentes é sinal de a lente não está boa ou não está bem adaptada;
Lacrimejamento excessivo é sinal de lente de má qualidade ou com defeito;
Nenhum paciente consegue se adaptar com uma lente que provoca dor, isso não é normal;
Apresentar episódios de ceratites (lesões epiteliais) freqüentes não é normal;
Lentes que ficam "presas" nos olhos e não se mexem não estão bem adaptadas;
Lentes que se deslocam com muita facilidade ou caem não estão bem adaptadas.
Filme Lacrimal
Uma observação clínica que muitas vezes é relevada por especialistas é a observação e análise da estabilidade lacrimal do paciente. Pacientes com oho seco, seja evaporativo ou não, tem grande dificluldade em adaptação de lentes especialmente se a qualidade das lentes for muito boa. Para o sucesso na adaptação de pacientes com perfil lacrimal mais baixo é de fundamental importância que uma lente que permita o livre trânsito da lágrima seja adaptada e de forma que a lente não produza um atrito mecânico no ápice do certocone, especialmente se próximo do eixo visual.
Ceratite causada por LC RGP de diâmetro pequeno com toque apical, lesão no ápice. Observa-se também a marca deixada pela lente na córnea.
Quando o paciente apresenta ceratites freqüentes, é tratado e depois instruído a usar a mesma lente as chances de haver uma recorrência da ceratite são grandes. Alguns pacientes são assimtomáticos e podem não perceber isso, portanto as visitas de rotina e a adaptação de lentes que não toquem a córnea é muito importante. Estes pacientes que machucam a córnea, tratam com gel específico, voltam a usar a mesma lente, fazm nova lesão e seguem nessa tendência poderão desenvolver cicatrizes permenantes que irão por conseqüência o comprometimento da melhor acuidade visual, perdendo as vezes uma ou mais linhas de visão (Tabela de Snellen).
Quando ocorre este tipo de situação o paciente muitas vezes acaba deixando o profissional e procurando ajuda com outros especialistas, as vezes ele percorre muitos especialistas e em alguns casos a solução parece não existir. É comum os pacientes que chegam nestas condições no IOSB terem uma certa reserva, de fazer mais uma tentativa mas sem "muita fé" ou as vezes com bastante esperança que possamos ajudá-los. Este tipo de paciente requer uma atenção especial e muitas vezes requer bem mais "tempo de cadeira" do que os demais, é preciso ouvir e compreender bem o seu histórico, expectativas e desenvolver uma solução viável para o caso, sempre a melhor para o paciente, tanto do ponto de vista da saúde como do valor que será cobrado de honorários de adaptação.
Atualmente com a recente disponibilização das lentes semiesclerais que estão surgindo está havendo uma tendência a procurar por este tipo de adaptação de lentes maiores. Vejo com certa reserva esta questão pois sabemos que grande parte da dificuldade destes pacientes não reside no tipo de lente que está sendo testada mas na qualidade e na tecnologia da lente que o profissional dispõe em sua clínica. As lentes esclerais e semiesclerais que dispomos no IOSB (Ultracone SSB e SB) somente são utilizadas quando há de fato casos de ceratocone de complexidade ainda maior onde as lentes para ceratocone corneanas não apresentaram o resultado ideal.
A adaptação indicriminada de lentes esclerais ou mesmo semiesclerais sem o devido treinamento poderá resultar no surgimento de novas complicações. É importante estar atento a estas alterações, observar se não está ocorrendo edema de córnea, compressão da esclera, impressão da borda da lente na conjuntiva, existência de pinguécula ou de pterígio importante, hiperemia conjuntival ou outras alterações da córnea, do limbo e da esclera.
Qualquer adaptação de lentes rígidas, seja qual for não devem apresentar toque apical pois poderá a qualquer momento começar um processo de atrito mecânico (especialmente ao piscar) que irá provocar alguma alteração nas células epiteliais e com o agravamento levar a ceratites recorrentes e mesmo a erosão ou a úlceras de córnea. Uma correta adaptação de lentes de contato RGPs no ceratocone deverá proporcionar uma adaptação tranqüila, sem dor, sem lacrimejamento excessivo e persistente e aumentando uma hora por dia o tempo de uso, em torno de 10 dias o paciente já deve sentir-se bem com as lentes.
A primeira referência ao ceratocone foi feita em 1748 em uma dissertação de doutorado pelo oculista alemão Burchard Mauchard. A condição de ceratoconefoi então descrita e distinguida de outras patologias em 1854 pelo médico John Nottingham que cunhou o termocórnea cônica. A patologia adquiriu seu presente termo em 1869 com a publicação de uma tese entitulada “Sobre o tratamento para o ceratocone” pelo oftalmologista Suiço Johann Horner.
A era “moderna” da correção do ceratocone começou em 1888 quando o oftalmologista Francês Eugene Kalt iniciou trabalhosem uma concha de vidro bruta desenhada para comprimir o ápice da área cônica e assim corrigindo a distorção. Esta foi a primeira aplicação conhecida de uso de lente de contato para a correção do ceratocone.
Hoje sabemos que o ceratocone ocorre tanto em homens e mulheres de todas as etnias e em qualquer país do mundo. Embora números definitivos sejam difíceis de determinar, muitos especialistas concordam que nos Estados Unidos aproximadamente 1 pessoa em cada 2 mil possui ceratocone. Embora a causa exata do ceratocone permaneça desconhecida, os efeitos ópticos da patologia tem sido trabalhado com uso de óculos e lentes de contato de alta tecnologia.
Não há evidências para apoiar a teoria de que o uso de lentes de contato desde o início do ceratocone seja de efeito terapêutico para deter ou amenizar a sua evolução. Embora na nossa experiência no IOSB de mais de 40 anos de reabilaitação visual com lentes de contato observe-se que há claramente uma relação entre o uso de lentes de contato de boa qualidade e bem adaptadas com um número bastante baixo de indicações de transplante de córnea, ou seja, quando comparados os indivíduos que usam lentes bem adaptadas com aqueles que não utilizaram os episódios de progressão foram maiores no grupo que não usou lentes, salvo exceções.
O protocolo de tratamento do ceratocone, que visa primeiramente restabelecer a melhor acuidade visual possível de se obter, sugere atualmente que o ceratocone seja observado em intervalos que variam entre a cada 3-4 meses, a cada seis meses ou a cada 12 meses dependendo da idade do paciente, do conhecimento do caso por parte do especialista e especialmente pela resposta que o mesmo apresenta ao método de correção visual ou terapêutico aplicado.
A primeira opção no diagnóstico inicial e enquanto for possível é a prescrição de óculos, é o padrão em todo o mundo. Com uma prescrição bem feita o paciente poderá em muitos casos ter uma vida normal, pois a miopia e o astigmatismo resultantes da irregularidade provocada pelo ceratocone estão sendo corrigidas se não em sua totalidade, mas ao menos em grande parte. Ao mesmo tempo a adaptação de lentes de contato tem indicação relativa no início (como opção aos óculos) e posteriormente tem indicação por necessidade quando os óculos não mais proporcionam uma acuidade visual satisfatória.
Acompanhamento da evolução da patologia
Com o acompanhamento, tanto o oftalmologista como o paciente pode observar se houve alguma deterioração da qualidade e da acuidade visual que é um indicativo de que o ceratocone teve episódio de progressão nesse tempo.A topografia de córnea tem sido utilizada especialmente nesta última década como meio de controle. O montante da progressão irá determinar se há de fato indicação para um tratamento cirúrgico menos invasivo como crosslinking ou implante de anel intracorneano com a principal finalidade de deter possíveis novos episódios de progressão. Geralmente pequenas alteraçõesnos exames topográficos e na ceratometria (Ceratômetro, Auto-Refrator-Ceratômetro, Topógrafo Corneano e Tomógrafo Corneano) não devem ser levadas em consideração para a indicação absoluta de procedimentos cirúrgicos, salvo se o paciente tem apresentado sinais claros de que a visão teve uma piora significativa. É igualmente importante distinguir se esta piora visual sem alteração significativa nos exames não é um sinal de uso inadequado de lente de contato de má qualidade ou de lente mal-adaptada. Na medida em que o paciente ultrapassa a fase do diagnóstico inicial ele geralmente experimentará alguns episódios de progressão. Estes episódios poderão ser mais brandos em pacientes bem orientados a utilizar colírios lubrificantes em forma de lágrimas artificiais para recompor o filme lacrimal que muitas vezes é alterado nos pacientes com ceratocone. A orientação de evitar coçar os olhos e tratar de alergias que levem a coceira ocular tem grande impacto preventivo para diminuir as chances de episódios de progressão freqüentes.Nesta fase que compreende dos 17-19 aos 23-25 anos é que os riscos de episódios de progressão são maiores.
A partir dos 25 anos, o paciente de ceratocone geralmente passa a ter episódios de progressão menos freqüentes ou mais raros, isso deve-se provavelmente ao fato de que o mesmo atravessou a fase de desenvolvimento do corpo e da atuação dos hormônios de crescimento com a chegada da idade adulta. Muitos especialistas afirmam que o ceratocone costuma estabilizar a partir entre os 30 aos 40 anos do indivíduo, embora seja de conhecimento que alguns casos continuam a progredir mesmo até após esta idade, em menor velocidade mas são casos que talvez tenham a indicação de transplante de córnea, estes são menos de 10% dos casos de ceratocone.
Nenhum outro grupo beneficiou-se tanto com a evolução na ciência de lentes de contato como os portadores de ceratocone.Lentes de alta oxigenação, novos desenhos de boa qualidade, adaptadas de forma personalizada e por profissionais experientes possibilitam uma visão incomparável com qualquer outro meio de correção ou de tratamento cirúrgico do ceratocone. Alguns casos (não necessariamente avançados) têm uma maior complexidade de adaptação e podem requerer maior tempo de testes e de estudo para determinar a melhor alternativa, porém os resultados obtidos geralmente compensam os esforços do médico e do paciente.
A história das lentes de contato no ceratocone
As lentes de contato iniciaram com as grandes lentes esclerais de 18 mm. a 24 mm de diâmetro feitas em vidro no final do século 19. Posteriormente entre 1930 e 1940 o vidro foi substituído por um molde sintético feito chamado polimetilmetacrilato (PMMA). Este material representou um grande avanço para a fabricação das lentes esclerais pelo fato de ser mais macio que o vidro, porém devido a não possuir permeabilidade ao oxigênio a utilização destas lentes limitava-se a um período de 4 a 6 horas, depois disso começava a apresentar edema de córnea.
Nos anos 50 as lentes esclerais deram lugar a pequenas lentes de contato chamadas lentes de contato corneanas (de 7.5 mm a 8.5 mm. de diâmetro), eram lentes rígidas fabricadas no material PMMA e por possibilitarem a troca lacrimal entre a lente e a córnea possibilitaram extender o uso para entre 8 a 12 horas dependendo do seu tamanho. Quanto menor ela fosse maior o tempo de uso devido a uma menor área de cobertura da lente sobre a córnea. Com o tempo estas lentes foram aumentando de tamanho pois isso oferecia uma adaptação mais estável, entretanto o edema de córnea continuava a ser um problema ser superado.
Dois avanços dramáticos na tecnologia de lentes de contato possibilitaram aumentar os diâmetros das lentes corneanas, sendo a introdução em 1979 do material gás permeável (RGPs) e de avanços nas técnicas de fabricação destas lentes com desenhos de maior complexidade geométrica. Novos equipamentos e técnicas de fabricação possibilitaram fabricar lentes com diversas curvaturas. Uma das mais importantes e que continua ainda sendo uma das lentes mais adaptadas no mundo é a lente rígida Soper, criada pelo nosso amigo e mentor Joseph W. Soper na Baylor Medical College em 1968.
Também em 1970 uma técnica chamada piggyback foi introduzida nos EUA com a finalidade de facilitar a adaptação de lentes de contato, consistia na adaptação da lente rígida sobre uma lente gelatinosa e continua sendo até hoje uma técnica utilizada, geralmente com bastante limitação e com um custo x benefício não muito favorável ao paciente, utilizada quando não se consegue obter uma boa adaptação com as lentes RGPs. O problema é que em grande parte dos casos o paciente irá desenvolver uma intolerância a esta técnica, especialmente pelo fato de a lente gelatinosa (mesmo descartável) provoca a médio-longo prazo uma intolerância alérgica devido à menor hidratação da córnea que ocorre com a lente gelatinosa. Outra tecnologia introduzida em meados de 1977 foi a lente híbrida, com um centro rígido e uma “saia” gelatinosa, chamada inicialmente de lente Saturno 1, esta lente apresentou problemas de descolamento da porção gelatinosa que rasgava com facilidade, mais tarde surgiu então a nova versão Saturno II que tinha a finalidade de ser mais resistente. Esta lente continuou a apresentar problemas com a porção gelatinosa periférica além de criar situações de edema de córnea por hipóxia (carência ou ausência de oxigênio suficiente para manter a córnea fisiologicamente saudável). Mais tarde a tecnologia foi reintroduzida no mercado sob o nome de Softperm e posteriormente vendida a outra empresa que novamente introduz no mercado a lente com o nome SynergEyes.
A lente tipo Soper foi aos poucos adotada no mundo inteiro e até hoje ainda é a lente mais adaptada para o ceratocone. Em alguns países surgiram variações desta lente cada uma prometendo um avanço em relação a original. Em 1986 surgia a lente Ultracone tipo Soper Modificada, fabricada pela Ultralentes que vem sendo aprimorada até os dias de hoje. Em 1988 aproximadamente o optometrista Neo-Zelandês Paul Rose criou uma destas variações chamando-a de Rose K patenteando seu desenho e através de um marketing muito bem feito vendeu a tecnologia através de royalties para países da América do Norte e Europa e posteriormente vendeu os direitos a uma empresa americana e esta repassou a outra maior.
No Brasil, em 1986 surgia a Ultralentes, laboratório criado pelo Dr. Saul Bastos (meu pai) e eu com a finalidade de desenvolver soluções para casos de alta complexidade como o ceratocone, pós-transplante de córnea, pós-cirurgia refrativa, pós-trauma, afacia, alta miopia e astigmatismos elevados, além dos casos de miopia e hipermetropia simples. De início começou o projeto Ultracone ou também conhecida na época como lente Soper Modificada que ele já adaptava em seus pacientes e com a Ultralentes passou a ter uma série de aperfeiçoamentos na tecnologia de fabricação e no seu desenho e a tornaram uma das melhores lentes especiais para ceratocone já desenvolvidas.
Diferentemente das demais lentes fabricadas pelas empresas de grande porte e com eficientes sistemas de fabricação, de distribuição e de vendas, a lente Ultracone passa a ser um artigo de luxo de alta tecnologia e primorosa qualidade adaptada por um seleto número de especialistas muitos freqüentes palestrantes sobre o tema adaptação de lentes especiais em congressos de oftalmologia como o próprio Dr. Saul Bastos.
Por mais de 100 anos as lentes de contato tem sido a primeira opção de modalidade para o tratamento do ceratocone. Poucas modalidades em toda a medicina obtiveram tamanho sucesso em longo prazo. Observa-se também que em diversas vezes tentou-se reintroduzir tecnologias especialmente em lentes gelatinosas ou híbridas que acabaram mostrando as mesmas limitações e complicações do passado. Muitos pacientes são levados a acreditar que estas modalidades alternativas de lentes são inovações mas na verdade não passam de reintroduções de tecnologias já experimentadas no passado que não tiveram êxito e por isso não sustentaram-se.
As lentes rígidas, hoje conhecidas como gás permeáveis (GPs) são indiscutivelmente as que oferecem a melhor qualidade e acuidade visual e se forem de alta tecnologia, de boa qualidade final e bem adaptadas oferecem grande conforto, a melhor acuidade visual possível de se obter e garantem a saúde fisiológica da córnea, fundamental na adaptação de lentes de contato.
Talvez a melhor inovação em lentes de contato desta década seja a reintrodução das lentes esclerais e semiesclerais rígidas feitas em materiais de alta permeabilidade ao oxigênio. A Ultralentes iniciou um projeto de pesquisa e desenvolvimento destas lentes em 2003 e somente no final de 2007 as primeiras lentes foram fabricadas e iniciou-se os testes clínicos no Instituto de Olhos Dr. Saul Bastos (IOSB). No final de 2008 já havia mais de 50 pacientes adaptados com as lentes SSB e com resultados extremamente animadores, sem nenhuma complicação. Em Julho de 2009 a Ultralentes anuncia então de forma pioneira o lançamento de sua linha de lentes de contato esclerais e semiesclerais com os nomes de Scleral Bastos (SB) e Semi-Scleral Bastos (SSB) com lentes de diâmetros de 16 a 21 mm de diâmetro de desenhos asféricos de alta complexidade geométrica. O melhor desta tecnologia é que ela permite a utilização destas lentes além de tratamento corretivo da visão, como tratamento terapêutico em algumas doenças da superfície ocular.*
Lente Ultracone Scleral Bastos (SB) em ceratocone avançado,
cortesia Ultralentes.
O custo mais elevado destas lentes justifica o investimento especialmente naqueles casos onde o paciente tentou adaptar diferentes lentes rígidas sem sucesso, casos onde mesmo os mais avançados desenhos de lentes corneanas não foram suficientes para oferecer conforto e boa adaptação.As lentes SB e SSB possuem dois variações, a Ultracone (SB ou SSB) e a Ultraflat (SB ou SSB). Os especialistas que já estão adaptando aos poucos estas lentes podem optar entre o modelo SSB de diâmetro entre 14.5 mm. e 16.0 mm. ou a SB de diâmetro entre 16.5 mm. e 21.0 mm.
Atualmente o IOSB possui uma casuística de mais de 250 casos de pacientes em sua maioria ceratocone de iniciais á moderados com intolerância a lentes rígidas corneanas, pacientes com ceratocone e deficiências lacrimais, casos de ceratocone pós-implante de anel, casos de Degeneração Marginal Pelúcida, casos de ceratoglobo, casos de ceratocone extremo (acima de 70 dioptrias), casos de pós-transplante de córnea com astigmatismos elevados, cerca de 10 casos pós-trauma e a utilização como tratamento terapêutico em casos de olho seco por ceratoconjuntivite sicca, por síndrome de Sögren, Síndrome de Stevens Johnson e um caso de queimadura química. O índice de complicações destas adaptações é praticamente nulo, em dois casos foram diferentes fenômenos foram observados e resolvidos em tempo hábil, essa é a grande diferença em ser detentor de uma tecnologia e poder aperfeiçoá-la em tempo real, pode-se corrigir o rumo durante o processo sem depender externa.
É sempre importante mencionar fatos, contra fatos não há argumentos. As lentes de contato RGPs e atualmente as lentes esclerais e semiesclerais GPs são largamente a modalidade de tratamento de correção visual mais eficaz que existe para os potradores de ceratocone. Embora alguns casos sejam beneficiados com os novos procedimentos cirúrgicos nenhum deles supera a adaptação de lentes de boa qualidade como a melhor alternativa para o paciente retomar suas atividades profissionais e sociais sem maiores dificuldades.
Avanços em Tratamentos Cirúrgicos para o ceratocone
Transplante de Córnea Os últimos 25 anos apresentaram avanços significativos nos tratamentos cirúrgicos para o ceratocone. Se olharmos para o ano de 1986 a única opção cirúrgica para o ceratocone era o transplante de córnea tradicional de todo o botão, chamada de ceratoplastia penetrante. Foi durante um tempo um procedimento que requeria a internação do paciente por alguns dias.
Atualmente todas as cirurgias para o ceratocone são realizadas com pacientes que baixam para o procedimento e após um determinado número de horas vão para suas casas para fazer a recuperação. A própria técnica tradicional teve aprimoramentos que passam por instrumentos mais precisos e pela sensibilidade do cirurgião que quando tem uma curva de experiência consegue obter um resultado melhor com uma superfície corneana menos irregular em torno do botão doado.
O uso da tecnologia do femtosecond laser possibilita resultados ainda melhores devido a sua capacidade de gerar um receptáculo na córnea hóspede com um encaixe para o botão da córnea doada que também é trabalhada pelo laser. Este encaixe do tipo “macho-fêmea” possibilita uma superfície bem mais homogênea e menos irregular, com uma cicatrização melhor e mais rápida se comparada á técnica tradicional. A técnica tradicional pode levar entre 12 a 18 meses até a total estabilização enquanto a técnica utilizando o femtosecond laser pode reduzir esse tempo para entre algo entre 6 a 9 meses.
Transplante Lamelar Anterior Profunda (DALK)
O mais recente avanço cirúrgico para o ceratocone em transplante é o refinamento da técnica de transplante de córnea de espessura parcial ou lamelar. Embora a técnica de transplante de espessura parcial (lamelar) esteja sendo praticada há muitos anos a melhor resposta visual está sendo obtida com uma refinada técnica introduzida pioneiramente pelo Dr. Mohammed Anwar na Arábia Saudita. Com a “grande bolha” (Ceratoplastia Lamelar Anterior Profunda), ar é injetado dentro da córnea de maneira que a membrana de descemet (logo abaixo do epitélio corneano) seja separada do estroma e assim o cirurgião poderá retirar a parte afetada pelo ceratocone sem entanto retirar o endotélio corneano (camada mais profunda da córnea).
As células endoteliais têm um papel extremamente importante em retirar excesso de água da córnea e manter sua transparência. Com o transplante tradicional a córnea receptora do paciente poderá reconhecer o botão do enxerto doador como um inimigo e rejeitar atacando-o como um invasor. Isso pode destruir as células endoteliais críticas que não se regeneram. Mesmo com a inexistência de rejeição estas células tendem a morrer algum tempo após o transplante tradicional e eventualmente a córnea pode tornar-se nublada perdendo a transparência e o transplante tem que ser refeito com uma nova córnea.
A técnica do transplante lamelar anterior profundo possibilita ao paciente manter o seu endotélio, permanecendo assim com suas células endoteliais e desta maneira a rejeição praticamente deixa de ser uma preocupação. Um enxerto feito com esta técnica deve ser apto a durar por toda a vida do paciente.
Implante de anéis intraestromais
Os segmentos de anéis intraestromais foram desenvolvidos inicialmente no Instituto Barraquier com o nome de Intacs para controle e redução da miopia. No Brasil, durante a década de 90 o oftalmologista Dr. Paulo Ferrara desenvolveu um protótipo com diferentes nomogramas para o tratamento do ceratocone, chamada técnica do Anel de Ferrara. Tempos depois outros fabricantes criaram suas versões chamadas Corneal Rings e Kerarings com diferentes desenhos. Atualmente há um aprimoramento da técnica que pode ser feita utilizando a tecnologia do femtosecond laser para produzir os dutos nos quais os segmentos do anel serão inseridos. A finalidade é gerar dutos com profundidade e tamanho precisos para a obtenção de melhores resultados. Alguns cirurgiões defendem a técnica manual dizendo que se o cirurgião tem experiência ele pode criar os dutos manualmente com o instrumento original para este fim com resultados similares e com o custo bem menor, não havendo de fato necessidade de utilização do laser para este fim.
Esta técnica visa prover a córnea com um reforço para deter o avanço da patologia e ao mesmo tempo reduzir a distorção causada pelo ceratocone. O implante de anéis intraestromais (também chamados intra-corneanos) pode ocasionalmente melhorar a visão mas em grande parte dos casos uma correção visual é ainda necessária, as vezes os óculos podem ajudar mas geralmente há a necessidade de adaptar lentes de contato.
Trata-se de uma técnica cirúrgica minimamente invasiva quando comparada ao transplante de córnea. Embora os defensores da técnica afirmem que facilita a adaptação de lentes de contato o que se observa é que em grande parte dos casos há a necessidade de adaptação de lentes rígidas gás permeáveis. Essa adaptação em certos casos passa a apresentar complicações originadas por uma elevação provocada pela extremidade de um dos segmentos na porção para-central da córnea o que dificulta a adaptação da lente rígida devido ao toque que é gerado. Este toque nesta região leva a uma ceratite de contato e se não interrompida o uso de lentes, pode gerar uma erosão e em último caso uma úlcera de córnea.
Alguns oftalmologistas optam pelo uso de lentes gelatinosas ou pelo sistema de piggyback descrito no início do artigo, o que leva naturalmente ás complicações ora expostas anteriormente. Na nossa experiência no IOSB tivemos que desenvolver uma lente especial para adaptação pós-implante de anel, chamada de Ultracone PCR (Post-Corneal Ring) e que através de curvas asféricas de maior excentricidade e de maior valor sagital procuram sobrepor esta elevação. Em Novembro de 2011 saiu um artigo na revista Contact Lens Spectrum Magazine escrito por mim que foi inclusive capa da revista no qual eu demonstro exatamente as dificuldades criadas em certos casos pela presença do anel em relação a adaptação de lentes rígidas e como a Ultracone PCR é capaz de em muitos desses casos solucionar o problema.
Capa do periódico científico Contact Lens Spectrum Magazine publicada em Novembro de 2011
com artigo de capa sobre adaptação de lentes de contato em ceratocone pós-implante de anel.
Uma outra ótima alternativa que encontramos foi a adaptação de lentes semiesclerais ou mesmo esclerais nestes casos, especialmente nos casos mais avançados com implante de anel onde mesmo a Ultracone PCR não foi suficiente ou teve resultados limitados. Há um vídeo no You Tube demonstrando a adaptação da lente Ultracone SSB em um caso pós-implante de anel onde não foi possível a adaptação da Ultracone PCR devido ao grau elevado do paciente. O vídeo pode ser visto abaixo.
Ultracone SSB adaptada com sucesso em ceratocone pós-implante de anel, cortesia IOSB.
Crosslinking de Colágeno de Córnea com Riboflavina
A mais recente intervenção cirúrgica minimamente invasiva para o ceratocone é o crosslinking de colágeno de córnea com riboflavina sob luz ultravioleta. Pela primeira vez temos uma técnica que permite de fato interromper a progressão do ceratocone. O procedimento visa aumentar a resistência biomecânica da córnea com a liberação de radicais livres de oxigênio o que normalmente tenta se evitar com o uso de antioxidantes mas nesse caso o procedimento visa enrijecer a córnea adiantando o seu “envelhecimento” e com isso sua dureza. Desta forma segundo os estudos que vem sendo realizados desde 2001 o tratamento é eficaz para deter a progressão do caso. Alguns casos surpreendem os especialistas por observar que mesmo alguns pacientes melhoram a visão e o formato da córnea com uma parcial regressão do ceratocone mas isso não pode e não deve ser considerado na hora de decidir optar pelo procedimento pois não há garantia real de que isso irá ocorrer.
Métodos do Crosslinking (CXL)
Há duas correntes que defendem a aplicação do crosslinking sendo a primeira o método originalmente criado de remoção do epitélio (epithelium off) que é bastante doloroso para o paciente nos primeiros dias mas que pode ser contornado com a utilização de analgésicos e a outra que consiste em manter o epitélio (epithelium on). Há uma discussão sobre a necessidade de remoção do epitélio corneano, pois a não remoção do epitélio garante um maior conforto ao paciente embora a técnica de remoção do epitélio produz um efeito maior uma vez que há maior penetração da riboflavina no estroma. Segundo os especialistas que defendem a remoção do epitélio a riboflavina tem ação efetiva no terço anterior da córnea e com isso a não remoção do epitélio acarreta numa penetração muito pequena da riboflavina comprometendo a eficácia do tratamento.
Segundo os idealizadores do tratamento do crosslinking a remoção do epitélio é fundamental para que seja atingido o objetivo principal que é deter os episódios de progressão e a indicação do tratamento somente é feita se houver a constatação inequívoca de que o ceratocone encontra-se em episódios de progressão recentes. O protocolo de segurança tal qual foi concebido por Theo Seiler e Gregor Wollensak (Protocolo de Dresden) é o único que possui um histórico de casos que podem ser analisado embora o tempo e o pequeno número de procedimentos realizados representem ainda uma amostragem pequena e sem a comprovação de longo prazo. Em todo o caso os resultados observados até então são animadores no sentido de resguardar a segurança dos pacientes.
Interessantemente mesmo na Alemanha onde o crosslinking foi concebido já há muitos oftalmologistas realizando combinações de métodos o que foge do tratamento originalmente proposto no protocolo do CXL. Há uma tendência de alguns especialistas mais ousados e interessados em expandir a aplicação do CXL em conjunto com outras técnicas como a cirurgia refrativa por fotoablação a laser e implante de anel. Estas variações foram denominadas então de experimentos possivelmente inspirados por um novo protocolo chamado de Protocolo de Atenas.
O Protocolo de Atenas é a combinação de uma cirurgia por PRK topo-guiado com a finalidade de diminuir ao máximo as irregularidades corneanas presentes no ceratocone mas evitando ao máximo a queima excessiva de tecido e a aplicação simultânea, na verdade logo em seguida, do crosslinking (CXL). O propósito é obter uma superfície ocular mais homogênea e prevenir que a mesma possa alterar utilizando o CXL para este fim. A técnica utiliza o laser topo-guiado para remover o epitélio e membrana de Bowman e ao mesmo tempo regularizar a superfície e já abrir o caminho para a aplicação do crosslinking uma vez que a penetração da riboflavina será maior e portanto garante uma maior eficácia do CXL. Foram apresentados resultados clínicos comprovando este fato.
Keraflex um novo tratamento para o ceratocone
Em 2009 surge uma nova técnica para tratamento do ceratocone que consiste em esquentar a porção interna córnea utilizando uma tecnologia de microondas e ao mesmo tempo mantendo a superfície fria para não comprometer as demais estruturas. O calor gerado pelo microondas tem a finalidade de criar um efeito de moldeamento corneano de aplanamento corneano, fazendo com que grande parte da miopia gerada pelo ceratocone seja neutralizada, embora os estudos apresentados reconheçam que o astigmatismo corneano ainda resta após o procedimento. Logo em seguida uma variação do Crosslinking é aplicada sobre a córnea desepitelizada, com o uso de uma riboflavina modificada.
O Crosslinking Acelerado foi parte essencial do estudo e foi desenvolvido posteriormente ao Keraflex pois observou-se que o ideal é que o crosslinking seja aplicado com a córnea ainda em seu estado mais “derretido” para que segurasse nessa posição mais plana, procurando eliminar ou ao menos amenizar a área cônica provocada pelo ceratocone. O crosslinking acelerado como é chamado é realizado entre 5 a 7 minutos e isso foi possível graças a riboflavina modificada desenvolvida.
Embora a técnica seja promissora no sentido de abrir uma nova perspectiva de tratamento é importante mencionar que as mesmas limitações de indicação do crosslinking são observadas no Keraflex e resultados à longo prazo são necessários para garantir a segurança e eficácia do método.
Conclusão
É inegável que houve muitos avanços nestes últimos 100 anos desde que o ceratocone tornou-se conhecido. É igualmente inegável que as décadas recentes apresentaram alternativas cirúrgicas menos invasivas que funcionam para alguns casos sozinhas. Mas ainda há um longo caminho a se percorrer até que resultados mais consistentes sejam obtidos e que tenhamos uma amostragem real e significativa de longo prazo para sabermos de sua eficácia e segurança.
É importante mencionar dois fatores importantes sobre causa e tratamento do ceratocone, primeiro que todos os estudos investigativos das causas do ceratocone apontam em determinado momento o fato de que coçar os olhos está presente na imensa maioria dos casos. Logo, tratar esse sintoma com anti-alérgicos e acredito que hidratar a superfície ocular com lubrificantes com menor conteúdo possível de conservantes ou sem preservativos seja uma boa idéia. O outro fator importante é que mesmo com todos estes novos métodos de tratamento cirúrgicos disponíveis a adaptação de lentes de contato especiais corneanas ou esclerais gas permeáveis continua sendo a melhor forma de reabilitação visual do paciente com ceratocone mesmo após os procedimentos serem realizados, salvo exceções onde a acuidade visual obtida sem correção foi suficiente para devolver uma acuidade visual satisfatória com ou sem óculos. Os avanços obtidos nos novos desenhos de lentes especiais oferecem ao paciente segurança, conforto e especialmente a manutenção da saúde fisiológica da córnea.
Na medida em que novas informações sejam disponibilizadas sobre o tema ceratocone e tratamentos elas serão postadas neste espaço.
Um Feliz 2012 a todos com saúde e melhor qualidade de visão.