Me impressiona que muitos dos pacientes que nós vemos no IOSB é que eles tem medo de ficarem cegos ou consultaram com um médico que informou que eles terão que fazer transplante de córnea e que esta é a única solução para seu problema. Outros passam por médicos que tentam a adaptação de lentes de contato, mas não tem bons resultados e o paciente não se adapta ou tem uma adaptação muito ruim com queixas freqüentes de desconforto e visão não satisfatória. Como a condição visual destes pacientes tendem a piorar seu medo de perder a visão fica cada vez maior e acreditam que a visão irá piorar a tal ponto de que nada poderá ser feito para recuperar a visão. Alguns destes pacientes já passaram por vários médicos e nenhum deles teve êxito na adaptação de lentes ou óculos e tem muito receio e medo de submeterem-se a cirurgia de transplante de córnea.
Entretanto estas estatísticas podem ser piores quando ocorrem os seguintes casos:
2.1) Lentes mal adaptadas são utilizadas, levando a intolerância e a opacificação da córnea.
2.2) O paciente coça regularmente e agressivamente os olhos, e não é orientado a tratar alergia de forma sistêmica e/ou tópica.
Muitos artigos comentam que o ceratocone evolui até os 40 anos do indivíduo, entretanto pacientes bem adaptados com lentes RGPs especiais e bem orientados a não coçar os olhos geralmente tem uma progressão menor do que outros casos. Tratar corretamente as alergias freqüentemente associadas ao ceratocone é muito importante para prevenir o coçar dos olhos. O coçar traumatiza os olhos e provoca remoção das células do epitélio e maior desgaste das fibras de colágeno enfraquecendo a córnea, afinando-a ainda mais e facilitando para que aumente a irregularidade do cone. O ceratocone geralmente começa o seu processo de estabilização em torno dos 25 anos do paciente.
Algumas alternativas para evitar coçar os olhos são:
b) Lavar os olhos (pálpebras) com shampoo J&J neutro Ph balanceado com alguma freqüência, utilizando soro fisiológico, e posteriormente enxaguar abundantemente os olhos de maneira que isso remova impurezas acumuladas na lágrima. Lembre que o soro fisiológico depois de aberto dura 24 hs fora da geladeira e 7 dias se armzando na geladeira, não toque no bico do frasco para evitar a contaminação.
c) Alergia ocular pode ser tratada com medicamento tópico, como o Patanol S pingando apenas uma vez ao dia, é importante conversar com seu médico sobre esta questão. O Zaditen e Lastacaft entre outros também são indicados por alguns profissionais.
d) Compressas frias ou geladas amenizam muito a vontade de coçar ou a “coceira” e é uma ótima maneira de aliviar os sintomas rapidamente.
e) Substituir o sistema de limpeza e conservação de lentes de contato caso o produto utilizado cause sintomas alérgicos.
f) Tratar as alergias associadas (asma, alergia dermatológicas, etc.) de forma sistêmica. No IOSB o paciente é orientado a procurar um otorrinolaringologista em caso de rinite alérgica ou alergologista caso existam outras alergias associadas, é fundamental uma orientação nesse sentido. Alguns medicamentos podem interferir na lágrima do paciente, em alguns casos o medicamento para tratamento da acne Roacutan está associado a síndrome do olho seco, ou secura ocular, o que prejudica a saúde ocular dos pacientes, principalmente usuários de lentes de contato.
g) Em alguns casos, o coçar dos olhos está associado ao uso de lentes inadequadas e mal acabadas ou mal adaptadas. A solução nestes casos é suspender o uso destas lentes e fazer uma readaptação com lentes boas e bem adaptadas.
3. O que o paciente pode fazer para amenizar e diminuir o ritmo da progressão do ceratocone?
Nestes 45 anos de acompanhamento de pacientes adaptados com lentes duras (desde o tempo das lentes acrílicas até a atualidade tivemos uma significativa amostragem de pacientes os quais foi possível aprender pela experiência. Meu amigo Dr. Renato Ambrósio Jr. o qual tenho enorme apreço pela qualidade científica de seus trabalhos, pela sua competência e pela pessoa generosa que é, me perguntou em duas oportunidades se eu acreditava que o uso de lentes evitava a progressão do ceratocone. Como costumo dizer sobre este assunto, a pergunta é simples e direta, a resposta é de maior complexidade, mas resumidamente a resposta é não. Entretanto pela observação e acompanhamento de aproximadamente 15000 pacientes com ceratocone ao longo de 45 anos podemos observar que em casos onde o paciente usa lente em um dos olhos, bem adaptada e se não usa lenmte no olho contra-lateral a tendência é que a evolução seja maior (quando ocorre e geralmente ocorre) no olho sem lente. E o ceratocone quando tem que progredir ele o fará com ou sem lente ou seja, de fato é que a lente sozinha não tem a função e nem é indicada para esse fim de impedir a progressão mas sim de reabilitar a visão funcional do paciente e permitir que o mesmo tenha uma vida normal, com conforto e especialmente garantindo a saúde fisiológica da córnea.
Embora seja necessário um estudo com controle para confirmar estas informações e também verificar o porquê de o ceratocone tender a progredir mais sem o uso de lentes temos algumas suspeitas. Uma delas é que o olho com visão não corrigida ou sem uso de lentes é forçado o paciente pode ter uma tendência de coçar mais este olho do que o outro que está usando lentes, essa é uma das possibilidades. A outra, embora mais remota, remete a uma possível força aplicada pela pálpebra superior ao piscar que com a lente e o filme lacrimal formado entre o ápice do ceratocone e a lente possa servir como uma espécie de força contrária sem que exista toque central, de fato o filme lacrimal precisa estar muito bem distribuido [ver padrão de fluorosceína de excelência (devo escrever sobre isso em breve)] de maneira que esta força mecânica seja leve o suficiente para não causar lesão corneana e centralizada o suficiente para que a força seja distribuida de maneira harmônica e o quanto mais uniforme possível sobre a córnea. Importante mencionar que não tenho conhecimento de nenhum estudo publicado sobre estas duas possibilidades, e a resposta para a pergunta se a lente impede a progressão é não, se retarda isso é discutível mas passa impreterivelmente pela necessidade de uma adaptação bem feita e por uma lente RGP (rígida) de alta qualidade e alta tecnologia que possibilitem um excelente desempenho no seu uso.
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Inicialmente até mesmo telefonei pessoalmente a alguns dos mestres que foram nossos professores e orientadores (do meu pai e eu) que ainda estão vivos como o Dr. Perry Rosenthal, MD (Harvard Medical School) e Dr. Joseh Barr, OD. Eu comentei com eles que tinha observado uma possível “regressão” do ceratocone de alguns pacientes, embora soubesse que isso não existia. Confirmada minha suspeita, o que pode ter ocorrido é uma alteração do formato do ceratocone, justificando assim a necessidade de troca de lentes RGPs especiais Ultracone para mais planas (cerva de 1.5 a 2.5 dioptrias) para estes pacientes.
Para alguns pacientes nós recomendamos a leitura do livro A Dieta de South Beach, criada pelo cardiologista americano da Florida Dr. Arthur Agatston, MD. (South Beach, FL) para melhorar a qualidade dos exames sangüíneos de seus pacientes e tratá-los por antecipação para prevenção de doenças cardiológicas. A dieta que inicialmente não tinha o objetivo de emagrecimento mais tarde mostrou que era a primeira mudança visível em seus pacientes, a diminuição da gordura corporal. Esta dieta pode ajudar os pacientes a terem uma melhor qualidade de vida, nós não afirmamos que a simples adoção da dieta irá influenciar de fato no ceratocone, mas com certeza não irá prejudicar, pelo contrário, poderá ajudar em muitos outros fatores da saúde do paciente como na questão de prevenção de doenças cardiológicas, diabetes, entre outras. O fato é que se isso ajudar numa melhora do quadro do ceratocone e conseqüentemente da visão do paciente melhor, do contrário não irá tampouco prejudicar.
4. Higiene, limpeza e conservação de lentes RGPs especiais para ceratocone:
Um guia para manuseio, limpeza e conservação de suas lentes RGPs:
- Para retirar as lentes após o uso:
1. Lave bem as mãos e seque-as antes de manipular suas RGPs.
2. Retire primeiro a lente do olho direito.
3. Coloque a lente sobre a palma de uma das mãos com a face convexa virada para baixo, de forma que a lente se acomode na concavidade da mão.
4. Com o dedo indicador ou o mínimo, retire cuidadosamente o excesso de lágrima que restou na lente após a retirada. Usando mínima pressão, faça movimentos circulares de forma que você retire a lágrima que ficou na lente.
5. Lave sua lente com shampoo J&J ou um detergente líquido gel neutro (poucas gotas são suficientes) e enxague com água filtrada ou solução salina.
6. Remova a água da lente sacudindo-a no ar ou soprando a mesma.
7. Utilize o produto de limpeza indicado pelo seu oftalmologista fazendo com que toda a superfície da lente esteja coberta.
8. Repita a operação com a lente do olho esquerdo.
- Para inserir as suas lentes RGPs:
1. Lave bem as mãos e seque-as, retire a primeira lente do estojinho e examine toda a extensão da lente e borda para verificar se não há nenhum corpo estranho ou dano na lente.
2. Remova o produto das lentes esfregando a lente com o dedo indicador ou mínimo na superfície interna (côncava) da lente e com a superfície externa (convexa) na palma da outra mão.
3. Se quiser utilize soro fisiológico para enxaguar as lentes antes de inserí-las, mas lembre que o soro depois de aberto dura 24 horas fora da geladeira e 7 dias se armazenado dentro da geladeira. Evite encostar no bico do soro fisiológico.
4. Coloque o produto de sua preferência na lente, recomendado por seu médico, e insira a primeira lente.
5. Repita a operação com a outra lente.
Dentre os produtos disponíveis no mercado brasileiro para a limpeza de lentes de contato RGPs, destacam-se aqueles mais conhecidos e que tem fabricantes com sistemas homologados pela Agência Nacional de Saúde (ANVISA), os mais conhecidos são:
- Boston Simplus: maior viscosidade, solução multição, indicado para lavar, enxaguar e inserir as lentes RGPs
- Unique Ph: Solução multiuso, solução aquosa, bom para lavar, enxaguar e inserir as lentes.
- Opti Free Replenish: Ideal para lavar as lentes, acondicionar e inserir as lentes RGPs (embora seja indicado para lentes de silicone hidrogel, este produto pode ser utilizado para lentes RGPs.
6. O especialista tem que saber polir as lentes RGPs para pequenos ajustes:
A adaptação de lentes de contato rígidas requer uma avaliação ao vivo do paciente para saber se são necessárias pequenas modificações na lente de forma a proporcionar melhor conforto e melhor relação lente/córnea, assegurando o equilíbrio fisiológico corneano e sua proteção contra qualquer possibilidade de lesão. São poucos os profissionais que examinam um padrão de lágrima no biomicroscópio e com isso compreender se modificações se fazem necessárias. Também é necessário polimento quando as lentes apresentam algum risco ou depósito muco-proteico que não sai na limpeza diária comum, com o polimento as lentes podem ser revigoradas e durar mais um bom tempo confortáveis, seguras e assegurar uma boa visão.
Se o médico observar que é necessário modificação da lente, ele poderá fazer ele mesmo se possuir o conhecimento e o treinamento para isso, ou então deverá contar com um laboratório experiente que faça as modificações para ele. Geralmente essa segunda opção é um tanto falha, uma vez que a informação entre o médico o e o técnico no laboratório podem não funcionar devido a falha de comunicação, falta de conhecimento de ambos um na área do outro e principalmente por não ser um serviço personalizado.
Esta é a razão que desenvolvi o conceito da Consultoria Digital Especializada, onde os oftalmologistas credenciados na Ultralentes produzem fotos digitais e filmes do padrão de fluorosceína, enviam ao nosso laboratório para que sejam feitas as alterações necessárias de maneira que possamos fazer lentes absolutamente personalizadas aos pacientes. Isso é especialmente importante nos pacientes com ceratocone, pois frequentemente esses pacientes precisam que suas lentes sejam ajustadas, principalmente quando são lentes que não tem uma boa qualidade.
As lentes Ultracone dificilmente necessitam de ajustes tal é o alto grau de qualidade e tecnologia envolvidas, e então se casos difíceis se apresenta, o oftalmologista credenciado faz uso da consultoria digital, fotografando e/ou filmando os testes para repassar ao laboratório Ultralentes.
Quando uma lente fica muito riscada ou com fortes depósitos de proteína da lágrima, é necessária sua substituição. Não é recomendado insistir com lentes muito velhas pois os riscos de problemas aumentam, além da qualidade e acuidade visual que diminuem substancialmente e progressivamente. Lentes bem cuidadas podem durar até 3 ou mais anos, mas é de fundamental importância que o paciente visite o oftalmologista ou vá na clínica para avaliação de lentes a cada 12 meses no mínimo, isso se estiver tudo bem.
O polimento das lentes é uma atividade especializada, se não for feita por um técnico altamente qualificado as chances são de que as lentes fiquem ainda piores do que estavam, por essa razão é necessário ter certeza de que suas lentes são feitas por quem sabe realizar estas modificações com maestria.
7. Tenha lentes especiais de reserva atualizadas:
Luciano Bastos*
*Luciano Bastos é diretor do Instituto de Olhos Dr. Saul Bastos, técnico especializado em lentes de contato pela Contact Lens Association of Ophthalmologists (CLAO), membro internacional da British Contact Lens Association (BCLA - UK), membro da Contact Lens Society of America (CLSA University - USA), membro internacional do Gas Permeable Lens Institute (GPLI - USA), membro internacional da Contact Lens manufacturer Association (CLMA - USA), membro da Scleral Lens Education Society (SCL - USA), diretor da Ultralentes I.O.L., consultor especializado em pesquisa clínica e científica de desenhos especiais de lentes RGPs para córneas irregulares e colabora com artigos sobre lentes de contato para as revistas especializadas Contact Lens Spectrum Magazine (USA), The Contact Report (USA) e Global Contact (Europe).